As Agruras deste Bólido Inimaginável

junho 26, 2012 at 10:57 pm (10 minutos) (, )

 (A partir de “Dias na Birmânia” (1932), de George Orwell)

Sempre desconfiei do pessoal que, a cada dez palavras, aproveita para malandramente deslizar alguma referência à “identidade”.

Quando se fala sobre política: “é uma questão da identidade dos grupos que participam das manifestações contra a tarifa: hippies, punks, góticos, aposentados, corintianos…”.

Sofrimento psíquico: “a identidade está sempre em fluxo constante [outra muleta terminológica] e dificilmente pode ser apreendida…”.

Literatura, cinema: “o sujeito está aí, a identidade dele colocada a partir do momento em que se defronta com o desmanchar da memória e a necessidade de recontar…”.

Antropologia: a identidade e a alteridade, blablablá…

Há quem negocie a identidade em situação de conflito e que a reinvente em seu perfil no facebook. Há, claro, o problema do desaparecimento da identidade rural, que paulatinamente engrossa a multiplicidade complexa das identidades urbanas, tão lábeis que, enfim, líquidas – mas aí o tédio não permite mais acompanhar o andar da carruagem.

É, tudo muito esfumaçado, mesmo. Não é estranho começar a contar carneiros quando este tipo de artefato assalta a cena. Quando toma conta da conversa e os interlocutores deixam-se embasbacar. No meu caso, as mãos tremem, quero uma cerveja. Se for de manhã, café e cigarros (pra quem fuma). Deve-se sublinhar que, apesar de alguma ansiedade diante da reiterada cantilena, não há mais irritação. Você se acostuma – a identidade é um pilar tão fundante de certo jargão [como o é também a “energia/vibe” para uns, o “desenvolvimento” para outros, a “economia da cultura” para os mais descolados e o “empreendedorismo” para os irremediavelmente crédulos] que o único esforço possível é direcionar-se para mundos que dela prescindam.

Eis, no entanto, que um dia esta sólida convicção me trai. Como quase sempre, estava prostrado diante do computador, num sábado azul do qual me distraí até o ponto em que escureceu demais. Umas três ou quatro arfadas esquisitas, manifestava-se a miocardiopatia companheira. Velha (de) guerra. Hipertrófica, sempre súbita, embora não-obstrutiva. Resolvo esticar as pernas, desço até a padaria. Uma cerveja e um jogo de futebol na TV, daquela equipe lacônica demais. Rumino umas palavras com o padeiro, que limpa o vidro externo da estufa de salgados como se ali jazesse sua própria reputação. É conhecido o fato de que não se pode deixar aquela mancha de vapor prolongar-se demais pela superfície transparente: sinal de pouca dignidade. Respeito o gesto, ele não quer conversar.

E daí de novo aquela frase, daquele samba: “Eu já nem me lembro mais/ Quem me deixou assim.”

Logo em seguida, espirro. No instante mesmo em que o espirro se projeta, que me atravessa a centenas de quilômetros por hora, eu penso: “É tudo um bólido inimaginável.” São algumas vogais bem abertas, duas delas acentuadas, lutando contra a opacidade característica do “i”. “Bólido inimaginável.”

Repito para mim mesmo esta locução. Um achado! Várias vezes, bem baixinho. Só eu por ali, no balcão. Pelo ritmo da tarde, a cadência do futebol, o esmorecer do azul, a expressão parece deslocada. A cidade em feriado, deseja-se parada. Tudo calmo e eu ali, sob o efeito de cinética miragem.

Tento coçar o nariz e puxar a gola da camisa para frente – são meus tiques, os que adotei para vestir-me enquanto sujeito. Não consigo manejar um repertório tão complexo deles, como fazem com maestria tipos como o Slavoj Zizek. Já experimentei vários (cocei cabeça, cocei queixo, estalei dedos, mexi coreograficamente os lóbulos das orelhas, etc.), confrontei-os numa espécie de eliminatória, até que restaram só dois, a cuja prática jurei entregar meu cotidiano. Todos os dias, em situações de nervosismo e/ou tédio, puxa-se a gola da camisa e coça-se o nariz com a base externa do dedo indicador. E a vida pode seguir.

Ou não. Tentei fazer isso agora, diante do “bólido inimaginável” que me assaltava em plena padaria, mas não pude. Gritos parados no ar, meus tiques outrora tão eloquentes. Seria algum tipo de transformação que eu teria que decifrar? Diante disso, ânimo e preguiça.

Num estalo. Não tem momento especial ou crise alguma. Eu pensei que não queria mais pensar aquele tipo de pensamento. Não mais aquelas ideias sobre mim mesmo, sobre minha história, sobre como estou em eterna transformação, sobre os projetos para o futuro, sobre a possibilidade de meus filhos saírem o contrário do que eu desejo e imagino, minhas pretensões salariais, de convênio médico, a aposentadoria complementar, o tamanho do caixão ou a localização para o despejo das cinzas. “Porra, é uma ladainha de merda”. Dei um gole. Não faz sentido.

Prefiro contar algum feito, meu ou alheio, passado ou atual. Sentar-me à praça do mercado e conversar com Sócrates, observá-lo retirar a fórceps (herança materna?) alguma presunção dos supostamente sábios sujeitos comuns. Sentar com Orwell na Catalunha e perguntar por suas cordas vocais, depois que uma delas fora atingida por um refluxo do fuzil antigo, com o qual combateu pelas coisas certas. Ou mesmo questionar-lhe sobre outro fuzil, desta vez tão perfeito quanto um relógio suíço, com o qual abateu um elefante enlouquecido numa aldeia birmanesa (hoje Myanmar). Perguntar-lhe se o olhar melancólico que dirigiu àquele cadáver gigantesco, destroçado pelos nativos no momento imediatamente posterior, não era o mesmo que dirigia ao império britânico, àquela altura do campeonato.

Ou simplesmente observar e questionar acerca dos desníveis das ruas em volta, e das plantas que nascem das fendas subsequentes.

Ou seja, distrair-me de mim mesmo, de forma tão aguda e eficiente que este ousasse enfarar-se e desaparecer. “Distraídos venceremos”, o mantra a ser entoado.

Que isso não diga quem sou, mas o que é. Sem este papo de construção da identidade.

Mais um gole. Arfei também, é esquisito: vem sempre do nada – e com arritmia.

Assim como o “eu”. A gente fala muito disso. O “eu” não deveria ser dito, mas dançado.

Pensei: “que merda, a identidade”. Mas aqui está ela, em pleno texto. De certa forma, é ela que mata Flory feito um “bólido inimaginável”. Não que ele fosse um sujeito com o qual se conseguisse simpatizar de cara. Mas, com certeza, desperta-nos alguma compaixão – e a compaixão, para os que tentamos fugir do cristianismo, revolta. Há de se reservar algum tipo de misericórdia àquele cuja alma se despedaça diante de nós?

A de Flory esgarça-se assim, enquanto assistimos. Com o fascinante adendo de que ocorre entre dois mundos, como se estivesse com um pé em cada margem do abismo. Nisso, há uma perda dupla. O sentido não está nem lá, nem cá. Orwell, o escritor, fez outra coisa. Pelo contrário, viaja para encontrar tal sentido. Junta múltiplos mundos e os reorganiza, para nosso regozijo. No seu caso, a Birmânia, Paris e Londres (disfarçado de mendigo), a Catalunha. Algumas vezes, de armas em punho.

Mais um gole. Este ensaio, enfim, sai. Em pleno balcão da padaria, às 17h56 da tarde, pode-se vislumbrar a estufa sendo reabastecida. Há um pernil repleto de cebola, pimentão e tomate; há pão de queijo recheado com cheddar, há o que em minha infância se convencionou chamar “enroladinho de salsicha”. O atendente, também responsável pela panificação, está cansado. Despeja tudo maquinalmente. Há novas manchas de vapor na estufa. Percebo como seu olhar, sua hexis corporal, fundem-se ao seu ofício: deve limpá-la, deve retirá-la dali.

Mune-se de um pano sujo. Verifica-o: está imundo. Olha para os lados, para ver se eu percebi. Percebi. Encaro-o de frente, sem piscar. Sem tiques. Não estou nervoso, nem entediado – talvez tenham percebido isso, os tiques, interpretando como o sinal para finalmente se retirarem da minha vida. Miro fundo o rapaz. Tem a barba bem aparada e um cabelo malhado artificialmente – loiro e preto. Empunha o pano e ousa avançar para a estufa, trapo em punho, me encarando.

Deveria estar satisfeito com seus salgados novos, dignos de venda. Mas já os ignora (já estão prontos, etapa superada do processo produtivo) e se volta para a próxima missão. Se aproxima da estufa de forma ambígua. É prova viva de uma resignação determinada – tem que limpar.

Estou de frente para a estufa, do outro lado do balcão.

Mais um gole.

Ele começa. Não gosta de entrever meu olhar pelo vidro embaçado, mas resolvi não arredar pé. Olhos fixos, acompanho a máquina – o pano pra lá e pra cá. Ele também não baixa os olhos.

Daí acontece uma coisa esquisita: a mancha não sai. É mero vapor, mas não sai. Ele tenta outro, outro, até aqueloutro pano. Busca um “Veja Vidrex” no depósito e empapa uma flanela novinha, mas não adianta. Olha-me cada vez mais constrangido. Bebo mais um gole. Ofereço-o um copo (“pago a rodada”). Ele se recusa. Usa a camisa. O avental. Nada. Ofereço a minha manga de algodão puído. “ Depois de toalha velha, é o melhor material para pano de chão”, vendo o peixe. Ele sorri. Dou a volta no balcão e começo a esfregar. Quase nada se pode enxergar no vidro. Todavia, meu esforço tem resultado, a coisa começa a ficar limpa de novo. Entrevê-se já o lado oposto, xangri-lá.

Bem nesta hora, sou atingido por outro “bólido inimaginável”, desta vez às costas da cabeça. Uma garrafa ou algum outro utensílio. Foi ele, mais determinado do que resignado. Um ataque fulminante, envenenado de raiva. Roubei-lhe algo, sem saber. Sinto uma dor tremenda, caio e meus olhos se fecham imediatamente.

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Enfim, “A Doutrina do Choque”

junho 25, 2012 at 1:40 am (Aprofundando) (, , , , )

Enfim termino “A Doutrina do Choque”, de Naomi Klein. Um tijolaço de 550 páginas, que atinge a qualquer um direto na testa – e no estômago. Bom ser assim, o texto-projétil intranquilo, engajado, a jato, ágil, mesmo que com uma profusão incrível de adjetivos. Dados a rodo e uma postura clara, de crítica e também proposta. É necessária esta cirúrgica, embora intensa, descida às entranhas dos desdobramentos do capitalismo nas últimas quatro décadas, para entendermos melhor como a globalização transformou-se, no fundo, numa espécie de corredor polonês para muitos indivíduos, regiões e nações que nela adentraram. Tentar vislumbrar porquê e como o fim do século XX, cenário de desmoronamento de ditaduras na América Latina, de queda do regime de apartheid na África do Sul e da abertura do mundo do socialismo real – momento histórico tão repleto de abertura, receptível à criação política emancipatória – tornou-se o cenário de ortodoxia econômica e ideológica de tal monta, ao mesmo tempo em que produzia crises políticas em série. Mais importante: o livro exige do leitor o exercício de problematizar o que ideias produzidas e disseminadas em universidades têm a ver com tudo isso – “ideias perigosas”, não no sentido concebido pelos situacionistas.

Há mais de uma década Naomi Klein tem trazido não só toneladas de informações relevantes para pensarmos o mundo, mas principalmente obriga-nos a observar a maneira como as corporações transnacionais tem-no moldado à sua imagem e semelhança. Esta leitura está sempre acompanhada da perspectiva de como isso pode ser olhado pelo avesso – pelos prejuízos que têm praticado. O “No Logo” tem esta pegada, quando se debruça sobre o vazio absurdamente concreto que alimenta a econômica política das marcas mundiais, que para existirem mobilizam tanto a logística mais cara da publicidade quanto o trabalho precarizado em seu grau mais intenso.

“La Toma” (The Take) é outro momento deste combate, concebido no suporte audiovisual. Nesta obra realizada em conjunto com seu companheiro, Avi Lewis, fica bem claro o deslocamento de seu interesse, voltando-se um pouco mais para a natureza do neoliberalismo, o formato do Estado e os ajustes estruturais – no caso, o cenário é a Argentina. Isto por que, nos anos posteriores à publicação do “No Logo”, Klein passa a ser cada vez mais cobrada para apresentar alternativas à globalização corporativa. Resolve então passar um tempo naquele país, para acompanhar os trabalhadores de fábricas falidas pela má gestão dos antigos proprietários retomando a produção a partir da autogestão coletiva – como se dá também a bela luta dos trabalhadores da Flaskô e da Cipla no Brasil. Isto no contexto pós-Menem, de extremo esgarçamento do tecido sócio-econômico nacional, que culmina nos protestos do fim de 2001, embalados sob a memorável consigna “que se vayan todos”.

Em 2007 surge “A Doutrina do Choque”, ambicioso projeto que persegue o capitalismo por outro lado, conferindo mais complexidade à iniciativa de acossar a configuração atual do capitalismo neoliberal corporativo – o que reforça a percepção de que Klein é uma intelectual, no sentido atribuído ao termo por Edward Said. Não sei se tem alguma formação além da jornalística, não sei se dá aulas em alguma universidade, nem se segue mais ferrenhamente alguma vertente teórica (embora um certo keynesianismo apareça renitente n’”A Doutrina…”). Não importa muito para a definição de intelectual que partilhamos aqui. Importa a coragem de de articular um ponto de vista em público, de confrontar ortodoxias (“ser do contra e até mesmo desagradável”), não ser cooptado por governos ou corporações (e denunciar a discrepância de poder inevitavelmente existente entre estes e as minorias ou indivíduos a estes contrários), agir de acordo com princípios universais, alinhar-se com os mais fracos, estar sempre em alerta constante e, por fim, não buscar corroborar consensos pacificadores.

A definição cai ainda melhor se citarmos um dos exemplos de Said, no contexto da primeira Guerra do Golfo, no governo do mais velho da dinastia Bush1. Para o pensador palestino, naquele momento histórico o intelectual deveria esclarecer que os EUA não eram uma nação desinteressada, mas sempre sedenta por conflitos bélicos (Vietnã, Panamá, entre outros) e também efetivar as ligações necessárias entre tais conflitos e os do presente para, então, apontar alternativas. Um dos muitos pontos altos em “A Doutrina do Choque” é a descrição de como a invasão do Iraque em 2003 tem a ver com a concretização de um projeto profundamente ideologizado de capitalismo, facilmente comparável àquele do começo dos anos 90, ainda na esteira do reaganismo.

Para Bush Jr., no entanto, imperativo era atualizar o legado, com a transferência não só de bilhões de dólares em ativos estatais para corporações do “complexo de capitalismo de desastre” (para o qual o lucro se dá pelas velocíssimas reconstruções de regiões inteiras, ou mesmo nações, assoladas por catástrofes naturais ou grandes transformações nos regimes políticos), mas também da elaboração e execução de políticas até então inimagináveis fora da própria esfera do Estado. A guerra, a defesa civil, a vigilância do território e da população, algumas medidas de segurança – o monopólio da violência legítima, enfim – simplesmente transferidas para o capitalismo corporativo, tendo o Iraque como laboratório de vanguarda (embora ela mencione a atuação da Halliburton já na logística das tropas estadunidenses em Kosovo).

Klein analisa e historiciza este processo, em chave fundamental para compreendermos uma das dimensões de acumulação do capital hoje, calcada em reordenações territoriais de escala pouco antes vistas. Vale então tentar reconstituir sinteticamente sua tese.

O núcleo duro da argumentação reside na aberta intenção da autora de refutar os pressupostos teóricos da Escola de Chicago, vertente da economia que preconiza a retirada de qualquer interferência que coíba a ação dos agentes privados no mercado. O Estado limita-se à garantia da segurança dos contratos e dos cidadãos. Todo o restante deve ser deixado a cargo do mercado e sua auto-regulação competitiva, capaz de, sozinha, operacionalizar com eficiência os mais diversos ramos da vida e também assegurar a realização da liberdade.

Esta formulação radical ganha corpo em momento pouco propício – a década de 1940, da qual a Europa sairá necessitando de muita interferência estatal na economia para que seus países pudessem se recuperar. Mesmo os EUA tinham passado há pouco pela crise de 1929 (que se estendeu anos a fio, alcançando outro ápice em 1932), tendo conseguido se safar apenas com o famoso New Deal e, um pouco mais pra frente, com a economia de guerra entre 1939 e 1945. A década de 1950 consolida a visão do Estado empresarial e interventor, com aumento de políticas sociais, subsídios à economia, muito investimento de capital fixo (infra-estrutura), pacto político entre sindicatos e empresários sob o regime corporativista da social-democracia, expansão do consumo de massas – e as maiores taxas de crescimento econômico até então já vistas.

Esta é a versão do capitalismo que disputa a hegemonia com o socialismo real soviético – mais acertadamente chamado de “capitalismo de Estado”, que explora a mais-valia de um trabalho compulsoriamente coletivizado, embora os resultados não sejam repartidos com o mesmo rigor. Para completar o contexto, há as descolonizações em África e Ásia e a ascensão do nacional-desenvolvimentismo de matiz populista na América Latina. Sobra pouco terreno para o ultraliberalismo da Escola de Chicago vingar.

Há, então, de se forçar para que tais ideias econômicas virem realidade. De qualquer maneira. A estratégia adotada então é formar quadros neste ambiente ideológico, para que se tornem operadores políticos influentes no futuro próximo. Convênios internacionais (USAID, Fundação Ford et alii.), firmados a partir dos anos 60, garantem a ida de diversos estudantes para Chicago. O Chile forma centenas deles (os “Chicago boys”), que se encastelarão na Universidad Católica. Para Berkeley, na Califórnia, rumam economistas indonésios, que consolidarão em seguida a ditadura de Suharto.

Noutro plano, começa-se a buscar locais para a implementação, em “perspectiva experimental”, da doutrina da escola de Chicago, constituída por leis econômicas consideradas tão sólidas quanto as regularidades das ciências naturais. Leis positivas e inescapáveis. Mote a ser repetido ad infinitum, ad nauseam. Faltava só o cenário para demonstrar isso com a maior clareza possível. Não só o cenário: há também condições básicas.

Klein as resume sob a ideia de choque. Ou seja, uma situação aguda, em que o ser perde a relação com o contexto que o circunda, em que o sentido mais íntimo que se estabelece com o mundo, sua verossimilhança mesma, é obliterado. Sem isso, o desespero acossa, inevitável, e a vulnerabilidade e a suscetibilidade a quaisquer influências externas ascendem a níveis extremos. Inversamente, a capacidade de resiliência reduz-se a pó. Pode-se, com isso, fazer com que o ser sob choque obedeça, dócil, aos ditames que se pretende impor.

A tese do livro é que o corpo teórico defendido pela escola de Chicago, em que “liberdade”, “não-interferência”, “crescimento” e “auto-regulação” são termos constituintes, tem historicamente se tornado realidade depois que países e regiões foram submetidos a estados de choque. Na real, esta é uma argumentação extraída de diversos documentos dos próprios ideólogos de Chicago, seja declarações para a imprensa ou correspondência com estadistas – como fica claro na comunicação entre Friedman/Pinochet, em que o primeiro adverte a importância de aproveitar a estupefação e o medo da população com a natureza terrorista do novo regime para implementar medidas que serram mal-vistas pela população. Ou seja, desregulação de preços de bens de primeira necessidade, cortes em gastos sociais, privatizações, demissão ou achatamento salarial do funcionalismo público, instauração deliberada de desemprego devido à abertura de mercados, internacionalização do mercado consumidor interno e desindustrialização local.

O choque é o contexto ideal para este tipo de estratégia, pois implica em total desarticulação das possíveis resistências. A sacada de Klein é perceber que os ultraliberais exploraram isso até o caroço. Seja

  • elogiando e contribuindo com golpes de Estado (Argentina, Chile, Peru, Indonésia, transição de URSS para a atual Rússia sob a orientação de Ieltsin);

  • fornecendo consultorias para ou exaltando momentos de autoritarismo político (China à época dos protestos da Praça Tianmen, Grã-Bretanha e EUA de Reagan e Thatcher, com suas investidas contra sindicatos concomitantes a jornadas bélicas externas);

  • mapeando momentos de desorientação devido à saída de regimes fechados (a Bolívia de Estenssoro em 1985, a Polônia sob o governo do Solidariedade, a África do Sul sob a CNA de Mandela após o término do apartheid);

  • agindo rapidamente diante da perda da capacidade econômica de países atingidos por crises agudas, desdobramentos da ação de capitais especulativos (o Sudeste Asiático após 1997);

  • aproveitando o vácuo causado por desastres naturais (o tsunami no Sri Lanka, em 2004, o Katrina em Nova Orleans, em 2005, o furacão Mitch na América Central);

  • ou, por fim, simplesmente legitimando a fabricação de catástrofes para alavancar o “complexo do capitalismo de desastre” como um todo (como fica evidente não só nas recentes jornadas bélicas no Iraque e no Afeganistão, mas também na crescente dependência que a economia de Israel tem da indústria da violência, que se aproveita do conflito com a Palestina e da tensão com o restante do Oriente Médio para substituir a importância das empresas de alta tecnologia para o país – pois até o começo da década de 2000 estas alavancavam boa parte da economia, tendo sofrido duro golpe com o estouro da “bolha ponto.com”).

O grosso do livro reside exatamente na descrição de como cada região desta foi reconfigurada a partir de alguma das modalidades possíveis de choque. Ou seja, como se pode transformar a doutrina de Chicago em realidade a partir desta cínica e aguda percepção de quando /como/onde agir, de maneira rápida e muito dolorosa, sobre populações inteiras atingidas subitamente, incapazes de reagir aos beneficiários dos lucros do “setor de desastre e reconstrução”. Como já dito, há profusão de dados e personagens, com destaque para Jeffrey Sachs, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Deng Xiaoping, Gonzalo Sanchez de Losada, Thatcher, Reagan, Pinochet, Paul Bremer, George Bush Jr., Thabo Mbeki, Suharto, e, (do lado dos que flagraram este tipo de ação e a denunciaram), André Gunder Frank, Eduardo Galeano, Orlando Letelier e Rodolfo Walsh – entre muitos outros. Há, no entanto, outra faceta do choque explorada com maestria, para nosso assombro. Nela destaca-se o nome de Ewen Cameron.

Cameron foi professor na universidade canadense de McGill, departamento de psiquiatria, tendo presidido também as mais respeitadas entidades da área em nível mundial. Reconhecido como grande cientista atuou entre as décadas de 30 e 60. Dedicou-se com esmero a experimentos de redução de contato entre os indivíduos e seu contexto, visando curar males psíquicos a partir do apagamento e posterior reprogramação de personalidades.

Para tal, privava as pessoas dos sentidos (vendas para os olhos, papelão para braços, pernas e tronco, quartos isolados para audição) ou estimulava-os ao máximo, para que perdessem a capacidade de orientação (ruído branco constante ou variações súbitas de barulhos, luzes extremas), aplicava doses de eletrochoques muito mais altas do que as permitidas à época, alterava constantemente horários e intervalos das refeições, dopava pacientes para que dormissem dias inteiros, usava substâncias controladas em quantidades proibidas para causar estímulos desconhecidos. Tudo isso, reconstitui Klein, tem chancela de “ciência” e passa a interessar a CIA, que inclusive passa a financiar os projetos de Cameron. No início do livro, ela relata seu encontro com uma das vítimas do psiquiatra, recrutada a princípio como cobaia para testes de ansiedade, que acaba com a memória e a personalidade em frangalhos – embora não completamente destruída. para reconstituir em conjunto os lampejos de recordações, Gail Kastner apega-se a infinitas anotações feitas em pedaços de papel e caixas de cigarro.

Neste exemplo fica clara outra intenção da obra, que é apresentar a tortura individual como metáfora não só para que os leitores compreendam os efeitos do choque no plano coletivo organizado a partir de pressupostos ideológicos norteando a economia. Mas também como a tortura torna-se mote comum da ação da inteligência dos EUA, pelo menos a partir dos anos 50, passando pelo manual Kubark da CIA, nos anos 60, e a doutrina do “Choque e Pavor” usada no Iraque de 2003, que enfim funde a tortura individual e coletiva como forma de ação. Sempre justificada política e cientificamente, buscando ser aprimorada em situações práticas como as ditaduras na América Latina, encontra o ápice da legitimação na doutrina da guerra/segurança preventiva anti-terrorismo do governo Bush Jr., que preconiza publicamente seu uso como método de obtenção de informação, ignorando o estatuto de “prisioneiros de guerra” estabelecido pela Convenção de Genebra e produzindo sujeitos não submetidos a qualquer legislação. No caso, os prisioneiros do pós-11 de setembro, em Guantanamo e outras bases comandadas pelos EUA.

É horripilante perceber as articulações entre ideias ultraliberais, territórios assolados e pessoas destruídas, numa narrativa que absolutamente nada tem de conspiratória. Tem, sim, o mérito de documentar fenômeno que tem se tornado conspícuo demais, porque já muito experimentado: a íntima relação entre globalização neoliberal corporativa e déficit de democracia, ou o estreitamento paulatino da possibilidade de incidir de forma efetiva em dimensões e espaços relevantes, definidores dos caminhos e futuros coletivos.

Tal cenário, como Jacques Ranciére cansou de falar, exalta cada vez mais a agência política e os atores sociais, embora antes se advirta que alternativas não existem, que o consenso democrático deve sucumbir ao regime puro da necessidade econômica, indexada em superávit primário, metas de inflação e tetos de dívida. O neoliberalismo – ou seja qual for o nome do bicho – acaba por parafrasear o marxismo mais ortodoxo. Apoia-se no impedimento de iniciativas para reverter a construção/consolidação de instituições absolutamente impermeáveis às demandas populares, apresentados como organismos técnicos que, no entanto, governam. Ou na tentativa de ocultar a nova configuração do poder de classe que apresenta a desigualdade (pensemos aqui nos bilionários da Forbes) como algo desejável, porque resultado de um processo “livre”, e a democracia como seu primeiro obstáculo, em seu afã de regular o que seria melhor regulado pelo dinheiro.

Alguns chamam de totalitarismo do capital, outros de autocracia burguesa, ou mesmo de capitalcracia – mas, após o livro, é impossível não perceber que, qualquer que seja o nome, sabe-se um de seus métodos preferidos: choque.

1Como os gringos não enxergam?!

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“A Industrialização da Mente”, 50 anos depois

março 21, 2012 at 11:30 am (Aprofundando) (, , )

Do pouco que conheço do Hans Magnus Enzensberger, posso dizer que gostei. Bastaria ter feito “O Curto Verão da Anarquia” (1970), livro espetacular sobre a participação de Buenaventura Durruti nas lutas da revolução espanhola, composto por transcrições literais de trechos de depoimentos de contemporâneos dele na Coluna. Mas ainda escreveu coisas interessantes sobre as mutações vividas nos anos 1960, devido ao avanço das mídias e do que ele, muito particularmente, denominou de “indústria da mente”. Sobre isso dá pra falar um pouco, visto que sua obra literária e ensaística posterior ainda merece explorações.

O texto sobre a indústria da mente (IM) é de 1963. Merece comentário por que continua atual, visto que problematiza a ideia de individualidade e as supostas positividades que carrega. “Todo mundo é livre”, “todos os indivíduos são iguais perante a lei”, “eu faço o que eu quero” são lemas que alimentam uma certa leitura comum da filosofia burguesa do sujeito – muitas vezes sem que a leitura efetiva das obras tenha ocorrido. E a ideia do sujeito soberano se esparrama pela sociedade.

Enzensberger aponta para o fato de que esta ilusão é recente e sua contraposição – que consiste em afirmar que o pensamento individual é um produto social – mais ainda. A ideia de liberdade de consciência não poderia ter sido formulada antes da divisão industrial do trabalho, visto que uma das características da mentalidade anterior é ter claro que “alguns pensavam por muitos”, como por exemplo o padre pela comunidade, o príncipe pelo povo e o mestre artífice pelo aprendiz. A partir do momento em que estas relações sólidas, óbvias e, por isso, inquestionáveis, passam a se desfazer, o problema de como nossa mente se forma passa a se colocar. Duas respostas surgem daí: a burguesa liberal, concebendo o indivíduo não só enquanto fortaleza inexpugnável e única, mas também como ente positivo, força motriz e criadora do próprio tecido social (Thatcher e sua afirmação sobre a inexistência da sociedade, apenas de indivíduos, é apenas a tentativa de requentar esta iguaria intragável); e a sociológica, em que a própria individualidade, embora não totalmente extirpada de singularidades, é também produto de um contexto sócio-histórico determinado.

Não só inexistente, mas também impossível de surgir, a problemática da IM é resultado de um contexto histórico, que o autor resume em quatro eixos:

  • Iluminismo: IM precisa de mentes independentes, autônomas em relação à superstição e à religião – consciências subjugadas a uma teocracia não oferecem brechas para a entrada da IM;

  • Política moderna: ascensão das noções de direitos civis, políticos e sociais, além da liberdade e igualdade modernas, faz com que os indivíduos, mesmo que a maioria não chegue nunca a vivenciá-las plenamente (ou mesmo minimamente), as cultive como algo a partir do que se orientar. IM interpõe-se exatamente entre tal horizonte e a realidade concreta. Devido à capacidade de pressionar governos em prol da materialização destes horizontes, a coerção física pura não se mostra mais suficiente ou legitimável – o objetivo agora é a produção ativa de consentimento.

  • Acumulação capitalista: antes, operários e camponeses não podiam ver-se como classe, visto que vivendo entre a subsistência e a miséria. Com o desenvolvimento capitalista, nível de vida sobe, assim como a necessidade de especialização dos trabalhadores e os níveis educacionais. Assim, é difícil que isto não engendre dialeticamente a crítica prática do sistema por parte daqueles que por ele são explorados. Para amainar isso, entra em cena a IM.

  • Avanço técnico: a partir da criação da eletricidade e outros adventos da segunda Revolução Industrial, está possibilitada a comunicação de massa.

Para compreender sua lógica é necessário empreender a crítica a outras abordagens teóricas. De um lado, aquelas que buscam compreender cada tipo de suporte novo que surge devido ao avanço técnico, ou seja, quais os impactos específicos do advento da TV, rádio, mídia impressa, propaganda, etc. Isto implica numa abordagem fragmentada e excessivamente midiática do problema, que passa ao largo de uma tentativa mínima de totalização que perceberia como tais suportes reproduzem uma lógica comum, existente também em atividades correlatas e não necessariamente vinculadas à indústria comunicacional, como o turismo, as pesquisas de opinião pública e a educação.

De outro lado, as teorias que assumem a tarefa de realizar uma “leitura crítica” das mídias, ou seja, de destilar do conteúdo seu papel ideológico, propagandístico e manipulador, possibilitando depois o estabelecimento de um sujeito “crítico”. A oposição aqui dá-se pelo fato de que um dos efeitos mais desconcertantes da atuação da IM seria a produção da indissociabilidade entre consciência pública e privada. Ou seja, esta crítica absoluta não teria lugar privilegiado, “não-contaminado” – todos nós, em determinada medida, estaríamos influenciados pela maneira como a IM opera, o que demanda uma crítica não só “dela”, mas “a partir” dela.

Antes de adentrarmos sua crítica ao conceito de indústria cultural, cabe aqui um comentário. Em “Elementos para uma teoria dos meios de comunicação”, também dos começo dos anos 70, Enzensberger acerta ao propor que “manipulação”, enquanto idéia-ônibus (ou seja, no interior da qual qualquer argumento cabe), deve ser despida de seu juízo de valor – de que algo manipulado seria algo ruim, porque distorcido de seu conteúdo original para enganar-nos – e retornar para seu conteúdo descritivo, a fim de ganhar novos potenciais explicativos. Para Enzensberger, ao contrário, manipular é simplesmente alterar uma determinada matéria para determinado fim, ou seja, o que qualquer edição, diagramação, narração, fabricação, fazem para materializar produtos. Afirmar que a manipulação é inerentemente “má” é admitir duas coisas:

  • Primeiro, de que o lado que critica não o faria por ser menos corrompido ou mais puro em seus fins, orientado por alguma instância teórico-prática superior – geralmente, mas não só, um partido político de esquerda orientado pelo centralismo democrático. Na verdade, seria bom reconhecer deliberadamente que qualquer produto informacional implica em manipulação e apropriar-se de forma competente dos recursos para realizá-la, para contrapô-los em seu próprio terreno de combate;

  • Segundo, a postura de lamentação e demonização acerca destas táticas do inimigo esconde a fraqueza em alcançar as tão desejadas massas, tornando-se uma apologia do auto-isolamento. Vale aqui citá-lo, pois há um argumento que retornará em nossa discussão:

    (Ao mesmo tempo, nesta mesma obra o autor aponta como a contracultura, muito talentosa no uso dos procedimentos de manipulação, acaba sendo facilmente deglutida pelas tentações da indústria, vendendo-se mais cedo ou mais tarde. Parece-nos, enfim, difícil achar um ponto ótimo nesta relação…)

Adicionemos um ingrediente a tudo isto. A noção de contra-informação, levantada por Vinelli e Esperón (2004), busca incorporar ambas as contribuições. Se, de um lado, reconhece os limites da leitura crítica da mídia como um instrumento suficiente de produção de consciência emancipatória, acredita que sua realização pode ocorrer, quando associada a outras estratégias de resistência. A primeira delas é seguir na senda proposta por Enzensberger e reconhecer a manipulação em todos os produtos midiáticos, não apenas nos hegemônicos. Tal reconhecimento implica numa abertura de horizontes para explorar as potencialidades de tudo o que surge – e aí produzir comunicação alternativa, ou seja, informação a partir do prisma da resistência política, torna-se chave. Apropriar-se de todas as tecnologias possíveis, embora sem delas fazer panacéia, sem esperar que redes sociais ou internet banda larga fomentem, em si, qualquer tipo de transformação, mas dedicar-se à necessária produção de conteúdo contra-hegemônico, a partir das armas postas, como forma de influenciar o contexto. (Vale lembrar que a panacéia acerca das potencialidades revolucionárias de novas ferramentas tecnológicas é datável a cada nova invenção: falou-se de transformações radicais com a chegada do cinema, do rádio, do telefone, do xerox, da câmera super 8. do vídeo cassete, da internet, das câmeras digitais, e, agora, das redes sociais. É uma apologia recorrente, que não deve ser rejeitada ou aceita sem restrições, mas contextualizada e dialetizada, através do uso prático destes suportes).

Voltando às críticas que realiza a outras abordagens, ele se refere também à noção de indústria cultural, cunhada por Adorno e Horkheimer. Seria inadequada por que pensa muito em termos de Kultur, ou seja, de um determinado corpo de conhecimentos e valores pelos quais, inevitavelmente, o indivíduo deve percorrer para obter uma sólida formação espiritual. Enzenberger alega que este apego a saberes passados e tidos como melhores torna seus proponentes inofensivos, incapazes de chegar a uma crítica eficiente à IM, além de relegados a discussões acadêmicas ragadas a certa nostalgia, que cria guetos em universidades e “cadernos de domingo nos jornais” obcecados em discutir os aspectos nobres da cultura com “C” maiúsculo.

A crítica ao elitismo e a esta suposta reclusão de alguns membros da escola de Frankfurt e de seu extremo pessimismo no final da vida não é privilégio de Enzensberger. Parece justa em parte, principalmente no caso de Adorno, mas mesmo ele usou largamente o rádio para comunicar-se com públicos não especializados. Além disso, reduzir a noção de indústria cultural a uma espécie de saudosismo em ladainha parece desmerecer o potencial do conceito, que é original por expressar não só a lógica capitalista da indústria num ramo até pouco tempo impensável, mas também, no espectro maior da “Dialética do Iluminismo”, como é manifestação de uma forma de pensar hetreônoma, dominadora, calculista. Talvez deliberadamente, Enzensberger oculta o fato de que o cerne do conceito de indústria cultural tem a ver com seu próprio propósito com a ideia de IM, que é…

,,, mostrar que seu principal objetivo, tanto em países do socialismo real quanto nos capitalistas centrais, é vender a ordem existente. No caso do capitalismo, tudo pode ser vendido, de sinfonias a partidos políticos, passando por sítios arqueológicos e discos. São mercadorias tanto quanto pneus ou calças. Mas a maneira como seu valor se estabelece é um pouco diferente, visto que podem ser consumidas sem ser pagas por aqueles que consomem, como no caso de músicas na rádio e, no momento contemporâneo, softwares ou filmes assistidos no youtube. Surge aí a ideia de uma exploração imaterial, que não se foca no trabalho realizado no mundo fabril e a extração de mais-valia, mas a formação de um certo modo de pensar que, embora não seja produzido pela indústria (a consciência, falsa ou verdadeira, é sempre produzida nas relações sociais), é exponencialmente por ela divulgado e, por isso, modelado.

Para expropriar o poder dos homens, [as elites] têm que expropriar o cérebro. O que hoje está sendo abolido nas sociedades avançadas, de Los Angeles a Moscou, não é a exploração, mas nossa capacidade de percebê-la. (…)A pauperização material do século passado é seguida e substituída pela pauperização imaterial de hoje. (p.11-12).

Sua manifestação mais intensa hoje em sociedades ditas democráticas consiste nas opções de política a serem realizadas, que podem decretar qualquer coisa -inclusive o suicídio coletivo – com a concordância de uma “massa de ninguéns”. Alguma semelhança com os discursos durante as primárias republicanas nos EUA acerca da necessidade não de reformar o país diante da crise de hegemonia, mas sim de salvar-lhe a alma? Ou com o banimento, no estado do Arizona, de livros (dentre eles, a “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire) por estarem semeando o ódio naquela comunidade tão harmônica, que ao mesmo tempo expulsa levas de imigrantes que antes foram muito úteis para pressionar para baixo o nível salarial por lá? Ou mesmo a operação ideológica que atrela veículos como a Veja ao governo na defesa de um elefante branco como a Usina de Belo Monte, numa repetição (agora em eras supostamente democráticas) do mesmo procedimento brutal de expropriação de populações tradicionais e uso brutal de recursos territoriais em prol da concentração de riquezas nas mãos de poucos do qual se valia a ditadura civil-militar e sua política de grandes obras de infra-estrutura nos anos 70? Para não mencionarmos aqui a necessidade de guerras como as do Oriente Médio ou a construção do terrorismo enquanto válvula de escape para o afã do complexo industrial-militar…

Voltemos ao texto, em busca de um término breve para a polêmica entre Enzensberger e frankfurtianos. Se ambos apontam para mecanismos amplos de dominação, que valem-se dos recursos técnicos vigentes, atuando antes de tudo no plano da formação da consciência individual, com repercussões econômicas crescentes, consequências significativas para a atividade educativa, por que insistir numa cisão que não parece tão fundamental, correndo o risco de ser inclusive contraproducente? Seria ocioso tentar adentrar os motivos, mas há algo em que insiste Enzensberger, em termos de ação concreta, que parece diferenciá-lo da postura, digamos, reservada, dos frankfurtianos.

Em “Elementos…”, o autor reconhece filiação a Walter Benjamin, como único autor marxista(ao lado de Brecht) a formular uma avaliação dialética dos meios de comunicação, o que implica uma análise crítica, a possibilidade revolucionária de apropriação e apontamentos prognósticos para seu desenvolvimento. Fazê-lo a partir da noção ampliada de IM leva-nos a entender que, apesar da pretensão de dominação total, sua própria dinâmica deve deixar brechas e escolhas, por mais marginais que sejam. Senão estaríamos retornando a momentos históricos cuja margem de liberdade era menor e inaceitável para os atuais padrões. Assim, embora todos estejamos nela enredados, podemos considerar participações mais ativas do que passivas, o que pode incomodar e, pelo que se pode depreender, contribuir para rachá-la – ou ao menos esgarçá-la – por dentro.

Desdobra-se daí uma reflexão sobre o papel dos intelectuais (ao menos, uma concepção ampla do termo, utilizada pelo autor) diante dela. Tais figuras são necessárias para que ela se perpetue, pois não se pode repetir a mesma fórmula incessantemente sem perder a legitimidade diante dos dominados. Assim, ela necessita de inovações trazidas por estes intelectuais que, por sua vez, podem aproveitar para tensioná-la em diversos aspectos. Assim, os intelectuais são um risco para manter a segurança, são arruaceiros em potencial, o que acaba sendo contraditório por excelência para manter a indústria. Para mantê-los na rédea, todas as formas de intimidação podem ser mobilizadas.

Esta é uma indústria que precisa confiar, como fonte primária, naquelas minorias que ao mesmo tempo ela busca eliminar; aquelas cujo objetivo é inventar e produzir alternativas. A menos que consiga explora e manipular seus produtores, a IM não pode ter esperança em explorar e manipular seus consumidores. (p.14).

Encarar tais contradições é importante, para não cair no autogolpe de achar que suas obras não têm relação alguma com a indústria. Isto faz com que se participe sem refletir e, pior, sem vislumbrar como tensioná-la. A indústria fez com que o próprio papel do intelectual mudasse. A partir disso, há novas ameaças e possibilidades, trazidas por uma lógica da qual, antes de mais nada, ele deve participar para subverter. No entanto, 50 anos depois temos inúmeros exemplos desta relação entre intelectuais e IM, que nos trazem pouca animação. Uma série de pessoas antes ligadas de alguma forma à esquerda (Franklin Martins, Arnaldo Jabor, e, no mundo anglo-saxônico, Christopher Hitchens, são exemplos ilustrativos) demonstram a fragilidade de reação à IM, ao mesmo tempo em que membros da contracultura (penso aqui em ALGUNS rappers e ALGUNS músicos de bandas punk, além da ascensão desta esquisita categoria conhecida como “produtores culturais independentes”) parecem corroborar a sedução que a indústria exerce e a lamentável despolitização diante dela.

O que nos leva à necessidade premente de uma nova análise dialética do tema, 50 anos depois. Quem tiver sugestões de textos neste sentido, favor enviar!

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Noel e a “Filosofia”

março 19, 2012 at 9:06 am (10 minutos) (, , )

“Filosofia”, tema de Noel Rosa, ficou conhecida pelas novas gerações através da versão de Chico Buarque em seu disco “Sinal Fechado”, em que se propôs a revisitar outros autores como Gilberto Gil e Paulinho da Viola – cuja canção sobre a solidão e a velocidade urbanas dão título ao disco. Temos também a mais recente versão de Paulinho para esta obra de Noel num excerto de documentário sobre aquele  intitulado “Meu tempo é hoje”, realizado no começo dos anos 2000.
Alguns dos eixos da letra de “Filosofia” passam por preocupações recorrentes na obra do próprio Paulinho, seja como compositor ou nas canções de outros que escolheu interpretar. Para compreender melhor isso, vale debruçarmo-nos sobre tais eixos. A tensão da música parece girar em torno das duas posições não só diferentes, mas simétricas, ocupadas por dois personagens: o narrador na canção e o interlocutor ao qual se dirige. Aquele apresenta-se como deslocado na sociedade que, num duplo movimento, despreza-lhe e o condena – como um bom punk poderia sentir-se uns 50 anos depois dos escritos de Noel. O outro, que nunca aparece em voz ativa, é apresentado como alguém “da aristocracia”, que vive à barra das saias dos ricos e poderosos e só consegue ter algum destaque devido ao seu escancarado servilismo.
O narrador anuncia seu repúdio a esta postura e também sua indiferença para com a atitude do mundo em geral. O que confere tanta solidez às suas certezas é o apego ao samba e o auxílio da “filosofia”. Tal termo, ao meu ver, não designa especificamente o tipo homônimo de conhecimento que nasce na Grécia antiga e busca compreender o mundo através da argumentação, do estabelecimento de universais, da crescente abstração. Aqui, passa mais como um sinônimo de “visão de mundo”, como poderia corroborar o uso do mesmo termo no samba “Mora na filosofia”, de Monsueto – também, coincidentemente, trazido às novas gerações por um disco da década de 1970, o “Transa” (1972), de Caetano Veloso.
Mas é possível aproximar esta postura do narrador de Noel – um tanto distante, talvez tranquila, talvez triste – a uma característica do lógos grego. Ao menos aquele relacionado aos sábios antigos, anteriores a Sócrates e talvez mesmo aos pré-socráticos: a busca por uma medida justa para pensar e atuar no mundo, algo que não seja um puro jacto de raiva, nem submissão pura e simples (como antes ocorria à herança preexistente do mito), mas enunciado propositivo. Não estaria Noel buscando a temperança, a sophrosyne, quando acena para o fato de que a filosofia, antes de tudo, lhe auxilia a “viver indiferente assim”?
Para melhor ilustrar o argumento, poderíamos contrapor tal ideia a outra, também cara ao samba (abundante nas letras dos anos 20, 30, 40) e presente no mundo grego: a de orgia, não no sentido de bacanais pantagruélicos, mas de desmedida, de busca pelo prazer através da música, da dança, da bebida, da briga e do sexo. Esta desmedida, este deliberado e fundante excesso, muito afeita ao ditames de Dionísio, parece contrapor-se ao que pregam o “Noel filósofo” e também a temperança clássica.
Por fim, outro de nossos “sambistas-filósofos” – ou seja, que em sua lírica adotam certa postura contemplativa e ruminam o mundo ao dele tratar – é Paulinho da Viola. Poderíamos citar exemplos desta atitude em canções como “Meu mundo é hoje”, de Wilson Batista, na qual se afirma “Eu sou assim/Quem quiser gostar de mim, eu sou assim/Eu sou assim/ Assim morrerei um dia/ Não levarei arrependimentos/Nem o peso da hipocrisia”, numa profissão de sinceridade diante do mesmo mal que assola a tal aristocracia mencionada por Noel. Que, para Batista, poderia ser caracterizada assim: “Tenho pena daqueles/ Que se agacham até o chão/ Enganando a si mesmos/ Por dinheiro ou posição”.
Outros dois rápidos exemplos desta contemplação musical em Paulinho, desta vez de sua própria lavra, seriam os temas “Para ver as meninas” e “Coisas do Mundo, Minha Nêga”. O primeiro propugna um afastamento do mundo e uma busca da quietude não em prol de compreender um thaumazein, mas uma dor tão aguda que o leva a questionar-se sobre como se constitui sua própria subjetividade (“Eu nem me lembro mais/ O que me deixou assim”) e acaba por estimulá-lo a querer compor um “samba sobre o infinito”, seja lá o que isso possa ser.
Por fim, o “Coisas do Mundo, Minha Néga”, coloca o sambista como espécie de andarilho urbano, que vai topando com situações contraditórias, porque cotidianas e extraordinárias, tentando reagir a elas com tranquilidade, com naturalidade, para depois relatá-las à sua companheira.  Retornamos aqui a uma espécie de busca pela temperança, mas sem a frieza que é possível vislumbrar em Noel ou mesmo em Wilson Batista. É mais sutil e leve, mesmo que atordoada por todas as ocorrências brutais com as quais o narrador vai se deparando.

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25 de janeiro, 2012

fevereiro 14, 2012 at 11:54 am (10 minutos) ()

Saiu e era cedo. Feriado no meio da semana, dia bonito. São Paulo neste janeiro, sempre às cinco da tarde uma pancada de chuva. Hoje, não. Pra rua e a manhã sorria: imperativo por aqui o ato de lançar-se. Não exigia justificativa, embora a sua fosse aceitável: trombaria uma mina, com quem se enlaçava fazia um tempo.

Não sabia se gostava. Eles se estranhavam direto e depois fica um silêncio. Era bom que ela morava longe e no caminho ele podia se preparar, planejar galanteios, gracejos e provocações. “Se ela reclamar, dessa vez eu só fico quieto. Pô, o dia tá lindo. Um monte de gente na rua. Não tem motivo pra achar ruim. É só a gente dar uns beijos, pronto. Tá bom.”

O encontro era no Centro, tinha música no Anhagabaú. Aniversário de São Paulo. Exaltasamba, Katinguelê, pagodes polissílabos. Ela vinha da zona Norte, perto da Armênia. Ele, do Jaguaré. Encontravam-se mais no trabalho, na Santa Efigênia. Ele atendia numa das micro-galerias na penúltima quadra, lá pela altura do número 500 – “mais na parte de elétrica; se você quer novidade tipo mp4 e tablet, pode voltar. Se quer dos chinguilingui, que é mais barato e mais arriscado, vai mais pela esquerda, pelo 300. Se quer coisa dos outros gringos, tem que fuçar na galeria São Paulo.” Ela panfletava bem no início, no largo, ao pé da catedral. Passava o dia tentando convencer os compradores em manada – o cair da tarde a deixava atônita.

Depois do turno, tomavam suco (ele) e cerveja (ela) na beirada do viaduto. Ali tem um prédio baixo, com umas janelas verdes que ele gostava de olhar. Evangélico recém-convertido, neopentecostal no probatório, roçava religiosamente a mão na coxa dela. Era grossa e um pouco mole – ótima. Sofria por senti-la oprimida sob a película de lycra que chamam “legging”. Ela não parecia dar bola. Eletrizado, terminava rápido o suco e a mão continuava, maravilhada a ouvi-la palestrar.

Obcecava-a a possibilidade de terem que sair dali. Toda a região viria abaixo, está na hora de uma Nova Luz, anunciam as autoridades.“Nova Luz! Que igreja é essa? Para onde nós vamos?”, ela desenhava um horizonte devastado com as mãos no ar. “Um ponto aqui vale ouro, leva tempo pra construir a reputação.”

Numa dessas conversas, ele percebeu um ruído de trator de esteira, destes brutos que derrubam tudo e exigem operadores especializados. A principio não deu bola, mas percebeu que o restante dos barulhos passou a ceder – o motor voraz da máquina crescia e os derrubava. Os outros, quase familiares de tão entranhados, passaram a decantar, depositados no fundo do ouvido. Mera estática, agora. Hoje não foi diferente: abriu a porta de casa e a coisa começou. Aos berros, a mãe foi taxativa: “Ih, meu filho! Audiometria pelo SUS demora. Mas você não está ficando surdo, a gente conversa bem!”

Sentia de vez em quando a máquina quase às costas, como se ávida para atropelá-lo. Olhava para trás e nada. “Porra!”, murmurava aliviado. “Que merda de barulho é esse?”, encarando a vitrine da floricultura na Barão de Itapetininga. Queria escolher um buquê, mas desconcentrava-se. Desconcentrava-se também com o sagrado: aqueles palavrões não lhe eram mais permitidos.

Elegeu uma gérbera e sob o sol desaguou na Sé. Tinha missa de manhã na catedral. Menos gente que o normal, mas ainda os tipos de sempre. Parou, admirou a bela edificação, mesmo que interdita em sua atual cosmologia.

Logo saiu do transe. Confusão numa das saídas do templo: ovos choviam, carros pretos com placas brancas e vidro escuro aceleravam,  policiais protegiam algum engravatado. Avistou um vulto que se esgueirava, de olhos bem arregalados sob o resguardo da segurança pública. Ao ataque, um grupo com bandeiras e barbas, vermelhas e negras, xingando a plenos pulmões. Sorriu devagar, um pouco melancólico. “Joga pedra mesmo!”, e imaginou projéteis aos milhares.

Declinou do devaneio levemente anarquista no Viaduto do Chá. Fones de ouvido, a música no talo, ela estava uma beleza, mascando os chicletes de menta. Encostada na mureta. Avistou-o, para logo em seguida desviar o olhar – ritual que não era só seu. A cabeça pende e disfarça, a mirada a esmo, como se não soubéssemos onde colocá-la nestes cinco segundos que @ amante leva para alcançar-nos. À certeza de sua chegada assalta-nos uma espécie de vergonha, por estarmos sim tão expostos ao deleite e não conseguirmos escondê-lo, mas também não completamente resolutos para reconhecê-lo. Como se no meio da multidão em burburinho ocorresse um breve silêncio e exatamente aí qualquer gesto nos entregasse: o estômago roncando alto, um choro enternecido ou, ainda, por sentirmos alguma misericórdia.

“E aí?”, foi sua tentativa de derramar-se. Ela não respondeu de pronto, embora inclinasse um pouco o rosto em sua direção e terminasse por abraçá-lo. Ficou um tempo ali, cansada no cangote dele, autorizando-o a sentir sua respiração tensa. Terminou por lamber-lhe de leve o lóbulo, amolecendo-o. Desencaixou o rosto e declarou: “Cara, tô pensando em ajeitar um currículo. Preciso de grana. Você manja destas coisas? Me disseram que tem que personalizar pra cada lugar pra onde eu resolver mandar.”

O jorro foi súbito, porém sem surpresa pra ele. Era romântica, de um jeito heterodoxo. “Melhor do que aquelas que exigem anelzinho no dedo já na segunda semana”, foi o que conseguiu elaborar de sopetão. Depois de terminar o anúncio, encarou-o com afeto, morna, para logo em seguida distrair-se no horizonte mais além. Ambos manejavam o desconcerto. Percebeu que uma borboleta pousou no ombro dela, de leve apoiada na blusinha nova, comprada no Brás especialmente pra hoje.

“Mas pra quê? Tá ganhando pouco com os panfletos?”, recostou-se no viaduto, para melhor projetar-se sobre os cabelos dela, submetidos a recente escova progressiva. “Ficar em pé o dia todo tá atacando as minhas varizes. É coisa de família e tá me incomodando. Além disso, os caras pensam que é panfleto de putaria e ficam com olhar guloso.” Ela tinha engulhos ao lembrar. Ele, ganas de matar (esqueceu-se da religião).

Ela desanimava em pleno 25 de janeiro. Enlaçando-a pela cintura, planejava mudar o rumo da prosa. Mas sobressaltou-se: com estrondo, o ruído do trator de esteira retornara. Ensurdecera de chofre e não conseguia mais entender o que sua companheira dizia. Impressionava-se com o fato de ela não perceber. Tão nítidos os movimentos rápidos, de motor agitado a realizar pequenos engasgos, como se querendo manobrar depressa num pequeno espaço.

Ao mesmo tempo, aquela pequena multidão da Sé vinha na direção deles, gritando em uníssono. Era menos gente do que na praça. Umas duzentas faixas, cada uma exigindo algo. Duzentas bandeiras, com siglas de até sete caracteres. Alguns tranquilos, outros com caretas de revolta, dois ou três com semblantes gozosos, de quem atingiu alguma autoridade na recente batalha. Em especial, percebeu um homem com o megafone, bem baixo, barba, óculos, a se esgoelar para a multidão que o ignorava.

O homem estava a seu lado, mas ele não conseguia escutar o discurso – e não sentia alívio por isso.

O homem baixo postou-se bem ao seu lado, megafone em punho. Fazia caretas desesperadas, gesticulava, dava pequenos saltinhos, pré-piruetas. A multidão excita os líderes, mesmo que a recíproca não seja verdadeira. As pessoas encostadas na mureta do viaduto afastaram-se, um pouco desgostosas. Ela fez menção de segui-las, agarrando-lhe pelo braço. Reclamava algo que ele não compreendia: nem os lábios conseguia ler-lhe.

Subiu na mureta para entender melhor. Ela ficou assustada, outros na multidão também. Temiam que se espatifasse lá embaixo. Conseguiria descobrir a procedência do estrondo? Transeuntes ao fundo, paralelos ao chão: percebia seus silêncios sorridentes, mas não o trator. Os manifestantes falavam prele ficar tranquilo, ela descabelando-se de medo, já na direção dos policiais.

São 458 anos.

Estava longe da queda.

Precisava de um currículo.

Uma borboleta no ombro.

“Solidariedade ao Pinheirinho.” “Capital imobiliário dependente de violência policial.”, entre outras faixas.

O sol no zênite – Nova Luz?

A cabeça explodindo. Como uma coceira por dentro do crânio.

É só a gente dar uns beijos, pronto.

O megafone.“Desce daí, rapaz!”

Pisca a sirene da viatura.

Onde está o barulho? Os outros barulhos?

Agora é esta coisa só, motor e esteira, querendo de alguma forma colocá-lo abaixo.

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Biografias

janeiro 29, 2012 at 11:06 am (10 minutos) ()

Não frequento mais tanto as vitrines de livrarias, embora sempre tenha por elas cultivado apreço. Num primeiro momento, passei a evitar o hábito por não ter dinheiro para realizar as compras que desejava tanto – e reputar desagradável o ato de salivar diante dos outros, estes sim capazes de consumir. Resignado, entrei a percorrer sebos, lugares cujo charme aumenta na razão diretamente proporcional de sua desorganização, obrigando-nos a adentrar pilhas de livros e pó. Paulatinamente, resolvi também não frequentá-los, por acharem-se por demais assépticos e caros. (Percebe-se que o crescimento de meus vencimentos estão na razão inversamente proporcional daquele que anunciam ser o de nossa nação hoje). Navego na rede, uma ou outra oferta nos portais. Às vezes traio minha sovinice e adquiro algum título.

As vitrines de livrarias foram também assaltadas por muitas coisas que me desinteressavam. Enfastiei-me com a profusão de obras como “Pai rico, pai pobre”, “Quem ama, educa!” e livros sobre os mais variados lances da 2a. Guerra Mundial, nas quais pululam homens fantásticos e impressionantes operações de logística. Procurei nas cidades lugares gratuitos, onde não haviam vitrines – o que me levou então a mirar bastante tempo o céu.

Na cidade nova, não se pode olhar muito para o céu – arranha-céus, esta patologia – e há ainda mais vitrines. Menor dos males: de volta às livrarias. Surpreendi-me com algumas novidades. Uma delas foi a multiplicação de biografias sobre jovens figuras do espetáculo contemporâneo. Em minha época de perseguidor das últimas invenções da indústria cultural, tal fenômeno não chamava a atenção. Hoje, não: Justin Bieber, Adele, Katy Perry, Britney Spears, Robert Pattinson e adjacências tem suas mínimas vidas esmiuçada em obras que brotam feito cogumelos após a chuva – em campos prévia e devidamente estrumados, diga-se.

Fico pensando: o que alguém faz para “merecer” uma biografia? Quando chega o momento de escrevê-la? Não se deveria ter um certo acúmulo de experiências e intervenções na realidade histórica (como no caso mais tradicional de estadistas, generais, lutadores da resistência popular, poetas)? Ou, ao menos, trazer algo de tão meteórico em sua trajetória que seria absurdo deixá-la passar em branco? Não me parece que algo assim se passe com os exemplos do parágrafo anterior.

Concluí que estes “biografados” têm a ver com um mote clássico da ideologia liberal: aquele que prega o exemplo individual do sucesso como referência para toda uma coletividade de pessoas que não chegaram ao mesmo patamar, mas precisam continuar acreditando que “conseguem”. Ou, ao menos, precisam estender um gesto de admiração àquel@s que teriam sido “mais competentes, mais esforçados”. A partir do momento em que se consegue o estrelato ou a fortuna, nada mais precisa acontecer: todo o propósito da vida já se efetivou.

A contrapartida desta ideia é exatamente o discurso que constata que o projeto de vida sonhado na adolescência e primeira maturidade não teria sido alcançado – fosse este o desejo d@ sujeit@ frustrad@ ou de outrem. Evidentemente, é muito mais comum conhecer alguém que esteja praticando ou já tenha praticado este tipo de revisão biográfica – que deságua em crises de diferentes graus de intensidade – do que alguém “bem-sucedido”, certo? O que nos leva a desconfiar da efetividade deste modelo para regermos nossa própria psiquê.

Conclui-se que o estatuto do que pode ou deve ser “biografável” deveria ser amplamente transformado e, por conseguinte, mutíssimo expandido.

Aí entra Agnés Varda e seu último filme exibido no Brasil, “As Praias de Agnés.” Dela, até então, ouvira apenas falar. Não conhecia seus filmes, sua história. E era para ter ficado  assim: fomos assistir outro filme, mas nos confundimos. Restou-nos a pré-estréia do filme de Varda. Última sessão do dia: se não encarássemos, perderíamos a viagem. Ficamos.

O filme parecia uma bomba: autobiografia da octogenária diretora, nascida na Bélgica. São nebulosas as motivações de alguém que se autobiografa – facilmente a coisa derrapa para a auto-exaltação. Por outro lado, o surgimento de “memórias” individuais são sempre bem-vindas, não só por parte de figuras públicas, mas por todos que tenham interesse em fixá-las. Estabelecem-se narrativas em perspectiva, que vão-se entrelaçando tanto entre si e quanto com os estudos históricos, conferindo carne, osso e, por vezes, poesia, à nossa compreensão da história.

Isto escrevo muito por que o filme de Varda, contrariando os temores iniciais, ajuda neste sentido. Bela, bela obra. Traça um panorama de sua vida interessante, com a juventude em plena segunda guerra mundial, a pobreza que leva a família a morar num barco em um pequena cidade belga, a perda do pai devido a dívidas de jogo, o envolvimento com o movimento cinematográfico francês da Nouvelle Vague, o casamento com o também cineasta Jacques Demy, a ida do casal a Hollywood nos anos 60, seu interesse pelas lutas pró-aborto, pelos Panteras Negras, as viagens a Cuba e China no início de ambas revoluções e o entusiasmo com o caráter do trabalho coletivo lá existente, o envolvimento com a cena artística da época, a perda de Demy devido à AIDS, o envelhecimento… São muitos eixos.

Varda os explora de forma criativa e ativa, por reconhecer o exercício da memória como algo deliberadamente seletivo. Brinca com isso. A começar pelo título do filme, justificado da seguinte forma: “Acredito que cada ser humano, se pudesse ser aberto, permitiria entrever uma paisagem. No meu caso, são praias.”. Isto é explicado na introdução do filme, enquanto ela e sua equipe montam diversos espelhos numa das praias de sua vida. O efeito desta operação é belíssimo, hipnótico e fragmentário – Agnés joga com a imagem com despretensão infantil e com a segurança de mestres de ofício.

A partir daí, são diversas as “brincadeiras” neste sentido. A memória vai ficando leve, mesmo quando lida com tensões e tragédias. Tal como sua voz, que narra tudo com poucas mas significativas inflexões. Mesmo seu andar já manco, o olhar um pouco vidrado – o exercício é tirar o peso sem perder a profundidade. Alquimia difícil.

Sofre quando lida com a morte de uma série de amigos com quem construiu toda uma dimensão da arte francesa a partir dos anos 50, marcada pela influência importante do surrealismo. Sofre principalmente ao falar de Demy, que desapareceu relativamente cedo. Sua figura aparece em diversos momentos, Agnés o ama muito. É inacreditável como se expõe sem se afetar. Às vésperas de sua morte, ela lhe propôs fazer uma filme sobre sua infância, entrecruzando as imagens ficcionais com outras documentais, captadas muito próximas do corpo de Demy convalescendo. Uma modalidade muito particular de luto, que gerou um filme nos anos 90 e é retomado n’”As Praias…”

Percebe-se que Agnés sabe se expor. Joga com isso, não como preconizaria nossa sociedade mercantil espetacularizada. Constate-se: tanto para as biografias ansiosas quanto para a as vidas que anseiam mostrar-se em “shows de realidade” nas TVs, nossa cineasta octogenária tem muito o que ensinar.

Ou, como diria um camarada: ela, sim, “tem café no bule”.

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David Harvey

janeiro 19, 2012 at 11:42 am (Aprofundando) ()

David Harvey é um intelectual que interessa. É daqueles cujas opiniões você quer saber e cujas novas iniciativas são esperadas com ansiedade. Suas obras, embora com um pé na geografia, disciplina na qual se formou e que lecionou durante bom tempo, transcendem o jargão e as preocupações habituais da compartimentação. Embora preocupado com o aspecto espacial da acumulação capitalista, a maneira como esta cria estruturas geográficas específicas, sua teorização busca transcender o disciplinar em busca de totalizações para a compreensão da realidade.

. Até por que, como explica no início de sua entrevista à New Left Review, não se identificava com o que chama de “excepcionalismo” na geografia, postura na qual viu-a encalacrada na década de 60, marcada por explicações localistas dos fenômenos, incapazes de superar os raciocínios fragmentados. Seu primeiro livro (Explanations in Geography, de 1969), busca na filosofia positivista da ciência da época (Popper, Hempel), este caráter mais abrangente. Àquela altura, não havia sinal de política, e muito menos de Marx, em suas reflexões.

Isto mudaria com sua ida da Inglaterra para Baltimore, nos EUA, exatamente um ano depois do assassinato de Martin Luther King e das revoltas que destruíram boa parte da cidade. Ao mesmo tempo, aconteciam as revoltas estudantis de 1968 e os protestos contra o Vietnã, as guerrilhas no Terceiro Mundo. Em seu relato 32 anos depois, Harvey surpreende-se com sua distância em relação a tudo isso na época. Sua aproximação com o marxismo dá-se com este começo de inquietude e também devido a um grupo de estudos d’ “O Capital’ puxado por estudantes, do qual ele participava e era o elo “burocrático” com a universidade.

Dos temas que a entrevista levanta, chama a atenção a maneira como sua ainda incipiente leitura de Marx aparece em “Justiça Social e a Cidade”, de 1973, devido ao fato de que sua opção teórica anterior, relacionada ao “liberalismo legítimo” que caracteriza alguns setores da intelectualidade progressista dos EUA, simplesmente não funcionava para explicar a dinâmica urbana. que pesquisava Procurando outras perspectivas, “tropeça” no marxismo – como ele mesmo afirma.

Daí, passa a pensar a dimensão geográfica da acumulação, no que se consolidará na exigência de se praticar o que chama de materialismo histórico-geográfico. Pensa o papel do capital imobilizado, como precisa produzir e destruir espaço, como pode representar um obstáculo à própria acumulação, devido ao fato de fixar-se. Reflete, baseado nas formulações dos Grundrisse, sobre o papel dos transportes e da comunicação da composição da mais-valia, visto que através destes a circulação se efetiva; sobre a necessidade, contraditória, do capital intensificar-se socialmente e expandir-se geograficamente; de como, nesta expansão, busca lugares onde ainda existem formações sociais pré-capitalistas, para incluí-los no circuito expandido de circulação e acumulação, sem necessariamente transformá-los em outros centros de produção capitalista; como o objetivo do capital é o aumento da velocidade de giro, engendrando uma compressão espaço-temporal que desejaria ser tudo, enfim, dinâmica; como o crédito surge para suplantar a impossibilidade de realizar as operações mercantis na velocidade desejada pelo capitalismo; como, quando a intensificação e a expansão encontram limites no que diz respeito à mão-de-obra, inovações técnicas e de infra-estrutura nas forças produtivas ou no incremento de mercado consumidor – seja no âmbito qualitativo criação de (novas necesssidades) e quantitativo (maior volume de troca de mercadorias) – surgem crises; como as crises representam momentos de racionalização do capital, no qual os setores de produção e as frações da burguesia tentam ajustar-se novamente; como, nestes momentos de crise, a política radical e a mobilização são fundamentais para forçar os rumos desta racionalização.

Estas formulações e outras aglutinam-se a reflexões mais contemporâneas de Harvey acerca da importância de se compreender a obra de Marx a partir de sua leitura na fonte e, principalmente, d’”O Capital” como livro, não apenas como capítulos específicos que serão utilizados para referenciar as pesquisas ou os programas políticos. Exemplo mais famoso e contemporâneo disso é a série de video-aulas que ministrou sobre o livro. Louvável inciativa de popularização da obra, atualmente conta com um coletivo de colaboradores que buscam traduzir e legendar o material pra o maior número de línguas possível, inclusive o português.

Esta atitude para com Marx é importante, segundo ele, pois o possibilita adentrar seu pensamento para depois “friccioná-lo contra outros blocos teóricos’ e ver o que resulta. Caso notório disso é Condição Pós-Moderna (1989), em que debruça-se sobre o discurso pós-moderno – hoje um pouco desgastado, mas bastante me voga nas últimas duas décadas – para tentar entender o que ele representa enquanto manifestação de um determinado momento histórico do capitalismo. Sua preocupação era dupla: de um lado, criticar a ausência de materialidade da discussão pós-moderna, em que tudo é multiplicidade discursiva, impossível de depreender se não a partir do fragmento e do novo, no qual indústria e o emprego formal acabam, e a história também; de outro lado, não queria perder o fato de que tal momento histórico demonstrava uma alteração em aspectos importantes do capitalismo, com a emergência do regime flexível de acumulação (sem a perda, é claro, de outras formas de organização da produção como o fordismo). Buscava, enfim, os possíveis desenvolvimentos da ideia, a partir da crítica devida. Vale dizer que, além desta postura, Harvey buscou as transformações tanto da produção material quanto nas estruturas urbanas, simbólicas e subjetivas, em coerência com sua busca pela explicação generalizante.

Destas investigações, surgem conclusões importantes. Primeiro, que o regime de acumulação flexível impõe tamanha incerteza ao cotidiano que não poderia ser a única maneira de produzir, sob o risco de colocar a própria vida social em xeque, amentando violência urbana e doenças psíquicas.

Segundo, apontou para a mudança no papel do Estado que, ao invés de interventor, empresário, como nos idos do keynesianismo, busca criar um ambiente mais atrativo para os negócios, limitando-se à algumas esferas de regulação, fornecendo incentivos fiscais para empresas multinacionais, reprimindo trabalhadores, flexibilizando legislações sócio-ambientais, facilitando a entrada de imigrantes como mão-de-obra mais barata, reduzindo ou cortando os direitos oriundos do Estado de Bem-Estar. Assim, percebe-se que o Estado nacional continua com papel axial, ao contrário do que se passou a proclamar a partir da década de 70.

Terceiro, este mesmo Estado mostra-se incapaz de regular as relações entre tipos de capital, assistindo atônito a uma absurda autonomização do capital financeiro em fluxo global.

Este Estado pós-moderno, neoliberal, está capenga no que diz respeito à realização dos direitos que o próprio liberalismo político promulgou. Harvey, em reflexões mais recentes, volta-se para a noção de justiça como duplamente fundamental. Por um lado, pelo viés teórico, para compreender a natureza contraditória do Estado liberal, que proclama uma série de direitos que simplesmente não são vivenciados por grande parte dos habitantes do globo, visto que muitas vezes direitos sociais e políticos estão apartados dos direitos econômicos. Por outro lado, pelo viés da política prática, a justiça social apresenta-se como um conjunto de conquistas reais dos movimentos sociais, lutas que devem ser valorizadas e que, quando aprofundadas, denunciarão o caráter ideológico e inalcançável da retórica dos direitos sob o capitalismo.

Com isto, Harvey deixa claro que não abraça o reformismo que a natureza redistributiva do conceito de justiça pode, num primeiro momento, deixar entrever. Cabe articular seu aprofundamento com o projeto socialista, que resulte na construção de uma concepção socialista de direitos, que auxilie na formulação de um novo projeto e, ao mesmo tempo, de um instrumento de tensão em relação ao sistema atual.

Por fim, vale mencionar duas das preocupações atuais de Harvey. Primeiro, o questionamento da teoria evolucionista/sociobiológica que frisa a competição como elemento central do comportamento humano, num movimento que acaba por justificar, no âmbito das ciências naturais, determinado discurso liberal. Ao contrário. Ele demonstra como a competição está restrita a poucos espaços no capitalismo. E não só: muitas vezes teme frontalmente a competição, fundando novos nichos de mercado para que determinadas empresas não tenham que bater de frente com outras, maiores e mais eficientes (esta é a dinâmica da diversificação econômica) ou socializando com o público prejuízos que seriam privados – vide recente estatização dos bancos e o resgate da General Motors para impedir que a economia dos EUA fosse à bancarrota.

Portanto, a necessidade de regulação, que o discurso liberal agressivo quer desprezar, torna-se inegável na organização de competidores selvagens. Quando retoma a discussão acerca do comportamento humano estabelecido pelos evolucionistas, visando fundar o socialismo a partir de suas argumentações, ele propõe que a organização dos elementos básicos do repertório humano em qualquer momento (adaptação, cooperação, competição, transformação ambiental, ordem temporal e espacial) devem ser reorganizados de forma a favorecer a cooperação como elemento hegemônico. É interessante, embora eu não manje nada do assunto.

Observando à época os movimentos de resistência global (principalmente o levante em Seattle durante o encontro da OMC, em novembro de 1999), ele coloca como é importante a organização de mobilizações contra o estatuto atual do capitalismo, pois só assim pode-se tensionar a racionalização imposta pela crise para um lado mais democrático – retornando ao seu argumento apresentado antes, de forma teórica, e conferindo-lhe estofo sociológico. Por fim, vale assinalar que sua posição em relação às lutas populares, buscando articular sua reflexão teórica com o engajamento prático, continua a mesma. Antes, envolveu-se em espaços de resistência comunitária à especulação imobiliária, em Baltimore, ou na luta pela manutenção de uma fábrica de produção naval, quando lecionou em Oxford. Mais recentemente, participou do Fórum Social Mundial em Belém, no início de 2009 (com uma palestra acerca da relação entre a crise e a bolha imobiliária) e também apoiou o Occupy Londres em 2011 ao realizar lá palestra pública.

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Sob a Marquise, na Cidade Nova

dezembro 28, 2011 at 1:36 pm (10 minutos)

Não tenho terra, permitam-me que nesta chuva eu diga. Mas é um brado parcial, este meu. Como é também a ocupação do solo – alguns têm, outros, não. E sempre há um terreno vazio por aí. Chegaram (o sujeito, por ora, fica indeterminado) antes, subiram a serra, fincaram os marcos, disseram: “isto é meu”. Bestializados, acreditamos nisto até hoje. Hoje, apartamentos vazios por toda esta cidade. Mereceriam ser mapeados, enumerados e colocados gratuitamente à disposição, em listas impressas em letras garrafais e espalhadas por todos os lambe-lambe possíveis.

A cidade, esta em particular, é um falta-e-sobra espaço de enlouquecer qualquer cristão.

Agora, por exemplo, tem gente demais aqui. Estamos todos apertados sob a marquise, compenetrados observando a enxurrada. Agradecendo às bocas-de-lobo que, mesmo cheias de lixo e prestes a entupir, escoam a àgua que poderia subir pra cá e nos afogar.

  • É problema de drenagem. Eu já avisei, mas eles nunca vêm pressas bandas. Já fiz esse serviço quando era moço e sei se a coisa está mal feita. Pra consertar agora vai ser osso. Pra começar tem que quebrar tudo.

“Eu”, no caso, é o Januário, o atarracado zelador de nosso prédio. Não tem o hábito de conversar, já percebi: apenas constata e nos dá o privilégio de presenciar seus diagnósticos. Sabendo disso, confere uma ar escolástico a cada declaração, seja em relação ao aumento do IPTU, os jogos da Portuguesa (seu time, para o qual torce com distância comedida) ou aos novos inquilinos que chegaram há pouco.

“Eles”, por sua vez, são aqueles genéricos funcionários do governo municipal, contra os quais vociferamos toda vez que algum problema irresoluto aparece. Como se sabe, ali reside a culpa, que o imaginário lhes atribui mesmo que a burocracia não o faça.

Quando adicionamos esta culpa tácita, derrota anterior ao próprio jogo, ao inabalável tom de Januário, sabe-se que nada mais há a se discutir. Concordamos sob a marquise, indignados em cantilena, a respiração suspensa de quem precisa se jogar na babilônia e não consegue – devido à inépcia de outrem, para quem um dia ainda vai sobrar porrada.

Acabamos de alugar o apartamento. É caro e minúsculo. Espaço: está perto do metrô (não à beira da praia ou à boca da mata virgem). Tempo: três anos antes da Copa. Aí, a gente se deu mal. E o contrato é por 30 meses.

Foi o que a D. Terezinha me avisou quando viemos olhar o apartamento. “Veja bem, meu filho!”. À época de nossas visitas para fechar a locação, nos perseguia na saída do prédio, avisando que, apesar dela, a vizinhança era esquisita, os condôminos irresponsáveis, que o “nível estava baixando” por ali. “Já procuraram em Perdizes ou em Moema?” Além de inusitada, sua insistência não disfarçava que a decadência não estava restrita ao prédio, impregnando nossa futura vizinha também.

Lembro-me disto bem no momento em que suas ancas fartas me comprimem lateralmente. O espaço sob a marquise comporta pouca gente. Ao lado de D. Terezinha, torna-se uma impossibilidade física e ética. Sem perder a gentileza e o respeito – afinal, é uma madama vetusta – tento não permitir que colonize toda a região, estabelecendo com diplomacia as zonas de fronteira. Sua voz fina e rouca me incomoda. Não quero que ela abra a boca, por isso, modero a disputa.

Em vão. D. Terezinha fala muito. Talvez formada no mesmo instituto de retórica que Januário, adora sínteses de efeito. Mas, para alcançá-las, infelizmente depende de adjetivos e interjeições a granel, encaixadas em rajadas desconcertantes, que não cessam. O interlocutor fica pasmo, não há brecha – entre as frases, desesperadas tomadas de fôlego anunciam não o término, mas a continuidade da ladainha. Por sua natureza torrencial, D. Terezinha é capaz de atrair ou repelir gente – é um campo magnético. Januário, por demais concreto, estaria mais identificado com metáforas na seara da engenharia.

Neste instante, oportunidade rara, D. Terezinha consegue fustigá-lo:

    • Não adianta ficar chorando pitanga. Você sabe como é, né, Januário? Não adianta. (Respiração arfante). Eu não devia ter saído de casa. Olha esta calçada! Isso não é responsabilidade do condomínio? Tá toda afundada, fica cheia de água. Essa água preta e a gente pisando. (Arfa, arfa). Ai que nojo, pode estar misturada com xixi de cachorro, gato, e a gente pegar toxoplasmose, que nem aconteceu com aquele povo quando choveu lá em Santa Catarina. Vocês não viram na TV daquela vez? (Língua de fora, arfando: muita gente em volta) Ifff, tem rachadura na parede do prédio também, dá pra ver a água escorrendo mesmo com a gente aqui embaixo!

Ao contrário de nossa situação, recentes e não-proprietários, Terezinha mora aqui desde sempre. Herdou o apartamento através de um mecanismo genealógico tortuoso, que insiste em explicar a todos os neófitos, descrevendo em detalhes heranças, inventários, conflitos de família. A família é paulista “desde os bandeirantes” e aí o papo ganha uma certa empáfia, que incomoda principalmente o Isvandilson, nosso único vizinho no último andar, . “A senhora deveria tatuar a bandeira no bíceps, ou dar aos netos esses nomes tipo Anhagabaú, Piratininga ou Itaquaquecetuba, pra demonstrar orgulho”, ele disse uma vez, num encontro tenso no começo da escada, em que por qualquer motivo já começava louvar a “locomotiva do Brasil”.

O Isvandilson é um punk hoje velho, que veio de Brasília no começo dos anos 80. Lá ele já se identificava com o visual, a música, as ideias – chegou em São Paulo apenas para confirmar. E esta foi sua maior alegria durante mais de 20 anos por aqui. Durante este tempo aprendeu a dizer as coisas na cara e na lata, por prazer e por dever. Atualmente, mais por prazer.

Não trabalha mais: vive de um precoce aposentadoria por invalidez (“mixaria da porra”) e da ajuda de um filho, que lhe envia dinheiro. O filho mora em Itapevi, trabalha numa loja de sapatos perto da São Bento. Anos atrás, tiveram “uma conversa franca”: disse que não queria o jovem sob o mesmo teto que ele, embora gostasse dele “pra caralho”. E mordeu: “eu preciso que você me dê uma grana de vez em quando, pois eu tô fodido. A vida me fodeu legal.” O “de vez em quando” virou mensal, e o garoto não reclama.

Isvandilson, ao contrário, esbraveja e impreca.

    • Se não fosse essa merda de hérnia nas costas, eu mesmo quebrava a calçada e fazia outra. Mas daí era pra parar de pagar este condomínio de vez, por que parece imposto do governo: suga, suga, e não tem retorno.

E acende um cigarro vagabundo.

      • Pôôôôô… – reclama a geral, tentando amparar-se em recente lei municipal anti-tabagista.

Em vão. O espaço é minúsculo e minhas narinas estão coladas ao Isvandilson. Mas não acho ruim, até vou com a cara dele. Meus ouvidos, por sua vez, colados ao celular do Maikel, que se prepara para o primeiro dia como motoboy na cidade. O toque do aparelho é um funk, Mr. Carta com grave estourado, no último volume. Tomo um susto, enquanto ele já atende: “Tô tentando sair, mas tá tudo parado, chefe. Aqui, na Jabaquara, tudo. Não tem nem como tirar a moto da garagem do prédio.”

O chefe berra no outro lado da linha. Não adianta. Nada se move. Maikel chateia-se um pouco, mas o motivo é outro. Baixaram (o “eles” desta vez, refere-se à vereança da cidade) uma lei que proíbe carona na garupa, e ele já tinha combinado de no fim de tarde tomar uma cerveja com a Keitilin, sua namorada, pra comemorar o trampo. Mas o chefe, aproveitando sua condição de mandatário, via telefone descasca-lhe ordens e reprimendas, avisando que a polícia está de olho e prele “não carregar nada além dos pacotes que eu mandar, ouviu?”

O Maikel tosse com a fumaça do cigarro e desliga o celular – o chefe já se desinteressara dele. Boa-praça e inexpressivo, mora com a mãe convalescente de erisipela no único apartamento térreo. Não se incomoda com os outros em volta. Apenas baixa os olhos e confere uma ou outra função do celular, que correra para comprar em 12 vezes ao saber que tinha um trabalho. Vestido com roupa de chuva plastificada e negra, típica dos motoqueiros, não demonstra angústia, satisfação ou raiva, apenas uma espécie vaga de complacência, com a qual divisa sua touchscreen - como se ali uma paisagem inteira se consolidasse. Como se o menu do seu smartphone lhe tragasse como o cigarro traga Isvandilson, a chatice traga D. Terezinha, a técnica traga Januário. Mas, ao contrário destes, Maikel conseguia deixar-se absorver numa paz que é também vazio. Mais do que com os outros que nos circundavam, naquele momento eu me incomodava mais com ele, por não saber como atingi-lo – por sua impassividade mesmo quando comprimido sob a marquise, via telefone, no trânsito daqui a pouco. Talvez escutando meus pensamentos, ele coloca o fone de ouvido e some de vez sob o capuz.

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Sweat Shop

setembro 19, 2011 at 10:59 am (10 minutos) ()

Miúda, a chinesa cantarola com voz estranhamente grave. Embora o rumor da manufatura sob o chão seja enorme – o porão tomado por máquinas de costurar, bordar, capazes de overlock rapidíssimo e outras façanhas – ela teima em relembrar tons da infância em casa. Mexe os lábios e sente o diafragma. Chamaria a atenção, se alguém se dignasse a levantar a cabeça. Jornada intensa, todos ali afundam o olhar nas operações que as mãos devem realizar com destreza. Caso contrário, o bicho pega.

Há também bolivianos, angolanos, somalis e brasileiros. A chinesa não calcula as horas, encalacradas apenas entre o trabalho e o sono. Há pouca luz, o idioma lá fora é estranho. Dentro, uma babel. Moram ali mesmo, num depósito adaptado ao lado, que já foi mais sujo. O dinheiro aqui é pouco. Pra ela, que é de lá, vale bem mais que o cansaço.

É jovem, pálida e tem varizes. A chinesa está apaixonada. Borda casacos de tecido sintéticos, destes que cortam o vento, semi-esportivos, vendidos aos montes em avenidas cheias de gente. Qualquer cidade de médio porte tem uma delas, visto que o mundo demanda. Mais especificamente, no atual panorama da divisão do trabalho, a chinesa está responsável por imprimir o slogan “Catch Tha Mouse” nas costas dos casacos, de cor negra e gola/mangas vermelhas. Logo abaixo da frase a estampa de um homem musculoso, dragão tatuado no peito desnudo, braços cruzados e luvas de lutador, olhar assassino.

Uma flor enfeita seu rosto. Roxa e amarela, já prestes a secar. A chinesa saiu estes dias e colheu duas ou três, por brincadeira. Está apaixonada por um brasileiro, vizinho de fileira na manufatura têxtil subterrânea. Não entende bem o que fala, ela que do português apenas maneja alguns verbos nos infinitivo e numerais ligados à contagem do salário. Decorou, há pouco, a quantidade mensal de horas trabalhadas: “quatlo-centos”, sorriu para o espelho ao conseguir pronunciar pela primeira vez.

O brasileiro se mexe calmo, parece conduzir a vida com alguma elegância. Magro, moreno, sobrancelhas grossas, antes das têmporas talhadas com precisão. Poderia ser um meio-campista do futebol nos anos 50. Vai com calma, senta-se ereto no banquinho defronte à máquina, antes de começar analisa bem a feição de todos que trabalham a seu lado, suspira bem de leve e se concentra. Concentra-se: não se prostra. Recebe resignado o resultado do fim do mês, sempre desconfiando de seus compatriotas patrões. Ama a vida, percebe-se quando ao fim do dia sobe os degraus do porão.

Todavia, ignora a chinesa. Parece andar noutro plano, ali no porão. Ela, que desajeitada meneia os cabelos quando o vê passar para o café. E sofre. Perde a atenção.

O contramestre, ele sim já percebeu. Boliviano, bufa ao seu lado. Quer resultados. Há portos para abastecer. A chinesa, nervosa, avermelha-se. Confunde as palavras na cabeça, quando pensa no que dizer ao amado. O contramestre passa-lhe rente ao cotovelo. A máquina escreve: “C-A-T-C-H”… Daqui a pouco é o intervalo. Hoje é sexta-feira. São 400 horas/mês. Não consegue fazer as contas na cabeça: haverá ou não folga no sábado? É quase verão.

“H-A-T”…, vai errado o artigo definido.

(O contramestre, quando dorme, sonha com seu próprio porão).

“No, no lo hagas así!”, berra numa língua que ali aprendeu-se a odiar. A chinesinha, sobressaltada. Distante, o brasileiro sorri de leve, conversando no café com os companheiros. Não vê nada ao redor: o intervalo é sagrado.

O rumor das máquinas ensurdece. O casaco está perdido enquanto mercadoria. A frase inglesa perde o sentido desejado. A chinesinha perde a folga. O contramestre arranca-lhe violentamente o produto das mãos. Bufa ao examinar o erro. É baixo, tem os cabelos lisos. Sua mais que todos os outros ali.

Aos poucos tranquiliza-se. A chinesa pensa que é normal que isso aconteça. Afinal, ela tem outras coisas mais importantes na cabeça. A cabeça, sempre baixa, quase anexa à máquina. Desconcentra-se: e daí? O contramestre, fixo nos detalhes do casaco  preenche-se da ideia: aquilo não deve ser desperdiçado. Deixa-se tomar pelo alívio produtivo típico dos administradores. Sejam eles grandes ou pequenos.

Sai sem dizer palavra. O comprador chega às trẽs. Sem titubear, no cubículo envidraçado de onde acredita gerir recursos humanos, dobra o casaco e o empilha junto a centenas de outros.

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Instruções para chover

setembro 14, 2011 at 9:25 pm (10 minutos)

Em frente ao prédio, a rua do centro da cidade, as poças colecionam chuva há algum tempo. As fendas, por sua vez, colecionam poças. Abaixo delas, vitórias-régias tremem de frio.

Há nelas um pouco da calamidade que nos cerca. A cachorra não percebe. Cava bem no meio da rampa de concreto de acesso à garagem. Mesmo com o som difuso dos pingos, pode-se ouvir suas unhas arranhando o concreto. Procura algo enquanto um fio fino de água começa a descer em direção ao subsolo, onde estão os carros.

Ao mesmo tempo, a cachorra pára e me mira através: chega com os olhos à chuva que está atrás. Ao interromper a primeira busca e empreender a segunda, agora com os olhos apertados e distantes, chafurdando na paisagem, percebo que sua perna esquerda traseira mexe involuntária. Eu fixo ali, enquanto a cachorra me atravessa.

Sei entrar pela garagem deste prédio que não é nosso. Chego já após o expediente, embora alguns indivíduos permaneçam aqui, perambulando pelos andares, entre uma reunião e outra. Conhecem-me, mesmo fingindo o contrário. Prefiro ir pelas escadas sempre, temo que o elevador enguiçe comigo dentro e ninguém ouça meus berros. No terceiro andar, rumo ao ático, trombo uma figura sinistra, com chapéu pontiagudo a esconder a calvície. As têmporas afundadas numa fronte que periga submergir,. Olha-me de soslaio, retirando-se de algum aposento para atender o celular na esquina escura do corredor. Nota-se que trama, que planeja, mas não escuta. Chove a cântaros, o ruído torna-lhe impossível compreender seu interlocutor. A ligação é cortada. Ele parece desesperar, percebe-me, enfara-se em seu próprio sobretudo. Some à direita. Sua sombra, projetada na luz amarela, permanece comigo.

Em solidariedade, a cachorra, perna trêmula, também sobe as escadas. Não se pode depreender sua idade, mas o pêlo está úmido e muito maltratado. O focinho cinzento de tanta cidade.

Vamos ao ático.

No último lance de escadas, chega-me aos pés uma torrente de água cada vez mais grossa. Vem túrgida, suja, viscosa. Penso nestes adjetivos todos quando me inclino para tocá-la. Penso em seus antônimos e sua inerente utilidade. A cadela lambe a água, os degraus, minhas botas. Mas o ruído de fundo muda. A metereologia muda. Outra sombra projeta-se de cima sobre nós. Há uma serra rilhando contra material duro. Olho pra cima, um homem de trajes verdes escuros, militares, barba ruiva artificialmente desgrenhada, surpreende-se comigo. Estou no último lance de escada, a cachorra não late, há apenas a possibilidade de luz pela brecha da porta. O homem está nervoso e oprime as próprias arcadas dentárias uma contra a outra.

Empurro-o com força. Não sou bom sem o elemento surpresa. Funciona, pois ele se espanta e impede seu ódio. Voa pelas escadas e me ultrapassa. Não queria nada comigo. Ouço seu tropeção, sua batida contra o portão de ferro da garagem. Machucou-se sem querer.

Ao sairmos, a cachorra cruza abrupta meu caminho, como se precisando chegar antes num ponto decisivo. Pára defronte ao pequeno canteiro de plantas decorativas. Sobre ela a água cai torrencialmente. Ela analisa as poças. Escolhe uma delas e volta a cavar.

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