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	<title>Pra Desterro Falar</title>
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		<title>Biografias</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jan 2012 14:06:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 minutos]]></category>
		<category><![CDATA[Agnés Varda]]></category>

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		<description><![CDATA[Não frequento mais tanto as vitrines de livrarias, embora sempre tenha por elas cultivado apreço. Num primeiro momento, passei a evitar o hábito por não ter dinheiro para realizar as compras que desejava tanto – e reputar desagradável o ato de salivar diante dos outros, estes sim capazes de consumir. Resignado, entrei a percorrer sebos, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=302&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Não frequento mais tanto as vitrines de livrarias, embora sempre tenha por elas cultivado apreço. Num primeiro momento, passei a evitar o hábito por não ter dinheiro para realizar as compras que desejava tanto – e reputar desagradável o ato de salivar diante dos outros, estes sim capazes de consumir. Resignado, entrei a percorrer sebos, lugares cujo charme aumenta na razão diretamente proporcional de sua desorganização, obrigando-nos a adentrar pilhas de livros e pó. Paulatinamente, resolvi também não frequentá-los, por acharem-se por demais assépticos e caros. (Percebe-se que o crescimento de meus vencimentos estão na razão inversamente proporcional daquele que anunciam ser o de nossa nação hoje). Navego na rede, uma ou outra oferta nos portais. Às vezes traio minha sovinice e adquiro algum título.</p>
<p align="JUSTIFY">As vitrines de livrarias foram também assaltadas por muitas coisas que me desinteressavam. Enfastiei-me com a profusão de obras como “Pai rico, pai pobre”, “Quem ama, educa!” e livros sobre os mais variados lances da 2a. Guerra Mundial, nas quais pululam homens fantásticos e impressionantes operações de logística. Procurei nas cidades lugares gratuitos, onde não haviam vitrines &#8211; o que me levou então a mirar bastante tempo o céu.</p>
<p align="JUSTIFY">Na cidade nova, não se pode olhar muito para o céu &#8211; arranha-céus, esta patologia – e há ainda mais vitrines. Menor dos males: de volta às livrarias. Surpreendi-me com algumas novidades. Uma delas foi a multiplicação de biografias sobre jovens figuras do espetáculo contemporâneo. Em minha época de perseguidor das últimas invenções da indústria cultural, tal fenômeno não chamava a atenção. Hoje, não: Justin Bieber, Adele, Katy Perry, Britney Spears, Robert Pattinson e adjacências tem suas mínimas vidas esmiuçada em obras que brotam feito cogumelos após a chuva – em campos prévia e devidamente estrumados, diga-se.</p>
<p align="JUSTIFY">Fico pensando: o que alguém faz para “merecer” uma biografia? Quando chega o momento de escrevê-la? Não se deveria ter um certo acúmulo de experiências e intervenções na realidade histórica (como no caso mais tradicional de estadistas, generais, lutadores da resistência popular, poetas)? Ou, ao menos, trazer algo de tão meteórico em sua trajetória que seria absurdo deixá-la passar em branco? Não me parece que algo assim se passe com os exemplos do parágrafo anterior.</p>
<p align="JUSTIFY">Concluí que estes “biografados” têm a ver com um mote clássico da ideologia liberal: aquele que prega o exemplo individual do sucesso como referência para toda uma coletividade de pessoas que não chegaram ao mesmo patamar, mas precisam continuar acreditando que “conseguem”. Ou, ao menos, precisam estender um gesto de admiração àquel@s que teriam sido “mais competentes, mais esforçados”. A partir do momento em que se consegue o estrelato ou a fortuna, nada mais precisa acontecer: todo o propósito da vida já se efetivou.</p>
<p align="JUSTIFY">A contrapartida desta ideia é exatamente o discurso que constata que o projeto de vida sonhado na adolescência e primeira maturidade não teria sido alcançado – fosse este o desejo d@ sujeit@ frustrad@ ou de outrem. Evidentemente, é muito mais comum conhecer alguém que esteja praticando ou já tenha praticado este tipo de revisão biográfica – que deságua em crises de diferentes graus de intensidade – do que alguém “bem-sucedido”, certo? O que nos leva a desconfiar da efetividade deste modelo para regermos nossa própria psiquê.</p>
<p align="JUSTIFY">Conclui-se que o estatuto do que pode ou deve ser &#8220;biografável&#8221; deveria ser amplamente transformado e, por conseguinte, mutíssimo expandido.</p>
<p align="JUSTIFY">Aí entra Agnés Varda e seu último filme exibido no Brasil, “As Praias de Agnés.” Dela, até então, ouvira apenas falar. Não conhecia seus filmes, sua história. E era para ter ficado  assim: fomos assistir outro filme, mas nos confundimos. Restou-nos a pré-estréia do filme de Varda. Última sessão do dia: se não encarássemos, perderíamos a viagem. Ficamos.</p>
<p align="JUSTIFY">O filme parecia uma bomba: autobiografia da octogenária diretora, nascida na Bélgica. São nebulosas as motivações de alguém que se autobiografa – facilmente a coisa derrapa para a auto-exaltação. Por outro lado, o surgimento de “memórias” individuais são sempre bem-vindas, não só por parte de figuras públicas, mas por todos que tenham interesse em fixá-las. Estabelecem-se narrativas em perspectiva, que vão-se entrelaçando tanto entre si e quanto com os estudos históricos, conferindo carne, osso e, por vezes, poesia, à nossa compreensão da história.</p>
<p align="JUSTIFY">Isto escrevo muito por que o filme de Varda, contrariando os temores iniciais, ajuda neste sentido. Bela, bela obra. Traça um panorama de sua vida interessante, com a juventude em plena segunda guerra mundial, a pobreza que leva a família a morar num barco em um pequena cidade belga, a perda do pai devido a dívidas de jogo, o envolvimento com o movimento cinematográfico francês da Nouvelle Vague, o casamento com o também cineasta Jacques Demy, a ida do casal a Hollywood nos anos 60, seu interesse pelas lutas pró-aborto, pelos Panteras Negras, as viagens a Cuba e China no início de ambas revoluções e o entusiasmo com o caráter do trabalho coletivo lá existente, o envolvimento com a cena artística da época, a perda de Demy devido à AIDS, o envelhecimento&#8230; São muitos eixos.</p>
<p align="JUSTIFY">Varda os explora de forma criativa e ativa, por reconhecer o exercício da memória como algo deliberadamente seletivo. Brinca com isso. A começar pelo título do filme, justificado da seguinte forma: “Acredito que cada ser humano, se pudesse ser aberto, permitiria entrever uma paisagem. No meu caso, são praias.”. Isto é explicado na introdução do filme, enquanto ela e sua equipe montam diversos espelhos numa das praias de sua vida. O efeito desta operação é belíssimo, hipnótico e fragmentário &#8211; Agnés joga com a imagem com despretensão infantil e com a segurança de mestres de ofício.</p>
<p align="JUSTIFY">A partir daí, são diversas as “brincadeiras” neste sentido. A memória vai ficando leve, mesmo quando lida com tensões e tragédias. Tal como sua voz, que narra tudo com poucas mas significativas inflexões. Mesmo seu andar já manco, o olhar um pouco vidrado – o exercício é tirar o peso sem perder a profundidade. Alquimia difícil.</p>
<p align="JUSTIFY">Sofre quando lida com a morte de uma série de amigos com quem construiu toda uma dimensão da arte francesa a partir dos anos 50, marcada pela influência importante do surrealismo. Sofre principalmente ao falar de Demy, que desapareceu relativamente cedo. Sua figura aparece em diversos momentos, Agnés o ama muito. É inacreditável como se expõe sem se afetar. Às vésperas de sua morte, ela lhe propôs fazer uma filme sobre sua infância, entrecruzando as imagens ficcionais com outras documentais, captadas muito próximas do corpo de Demy convalescendo. Uma modalidade muito particular de luto, que gerou um filme nos anos 90 e é retomado n&#8217;”As Praias&#8230;”</p>
<p align="JUSTIFY">Percebe-se que Agnés sabe se expor. Joga com isso, não como preconizaria nossa sociedade mercantil espetacularizada. Constate-se: tanto para as biografias ansiosas quanto para a as vidas que anseiam mostrar-se em “shows de realidade” nas TVs, nossa cineasta octogenária tem muito o que ensinar.</p>
<p align="JUSTIFY">Ou, como diria um camarada: ela, sim, “tem café no bule”.</p>
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		<title>David Harvey</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jan 2012 14:42:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aprofundando]]></category>
		<category><![CDATA[David Harvey; Autores Relevantes Contemporâneos]]></category>

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		<description><![CDATA[David Harvey é um intelectual que interessa. É daqueles cujas opiniões você quer saber e cujas novas iniciativas são esperadas com ansiedade. Suas obras, embora com um pé na geografia, disciplina na qual se formou e que lecionou durante bom tempo, transcendem o jargão e as preocupações habituais da compartimentação. Embora preocupado com o aspecto [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=296&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">David Harvey é um intelectual que interessa. É daqueles cujas opiniões você quer saber e cujas novas iniciativas são esperadas com ansiedade. Suas obras, embora com um pé na geografia, disciplina na qual se formou e que lecionou durante bom tempo, transcendem o jargão e as preocupações habituais da compartimentação. Embora preocupado com o aspecto espacial da acumulação capitalista, a maneira como esta cria estruturas geográficas específicas, sua teorização busca transcender o disciplinar em busca de totalizações para a compreensão da realidade.</p>
<p align="JUSTIFY">. Até por que, como explica no início de sua entrevista à <em><a title="New Left Review" href="http://newleftreview.org/" target="_blank">New Left Review</a>, </em>não se identificava com o que chama de “excepcionalismo” na geografia, postura na qual viu-a encalacrada na década de 60, marcada por explicações localistas dos fenômenos, incapazes de superar os raciocínios fragmentados. Seu primeiro livro (<em>Explanations in Geography, </em>de 1969), busca na filosofia positivista da ciência da época (Popper, Hempel), este caráter mais abrangente. Àquela altura, não havia sinal de política, e muito menos de Marx, em suas reflexões.</p>
<p align="JUSTIFY">Isto mudaria com sua ida da Inglaterra para Baltimore, nos EUA, exatamente um ano depois do assassinato de Martin Luther King e das revoltas que destruíram boa parte da cidade. Ao mesmo tempo, aconteciam as revoltas estudantis de 1968 e os protestos contra o Vietnã, as guerrilhas no Terceiro Mundo. Em seu relato 32 anos depois, Harvey surpreende-se com sua distância em relação a tudo isso na época. Sua aproximação com o marxismo dá-se com este começo de inquietude e também devido a um grupo de estudos d&#8217; “O Capital&#8217; puxado por estudantes, do qual ele participava e era o elo “burocrático” com a universidade.</p>
<p align="JUSTIFY">Dos temas que a entrevista levanta, chama a atenção a maneira como sua ainda incipiente leitura de Marx aparece em “Justiça Social e a Cidade”, de 1973, devido ao fato de que sua opção teórica anterior, relacionada ao “liberalismo legítimo” que caracteriza alguns setores da intelectualidade progressista dos EUA, simplesmente não funcionava para explicar a dinâmica urbana. que pesquisava Procurando outras perspectivas, “tropeça” no marxismo &#8211; como ele mesmo afirma.</p>
<p align="JUSTIFY">Daí, passa a pensar a dimensão geográfica da acumulação, no que se consolidará na exigência de se praticar o que chama de <em><strong>materialismo histórico-geográfico</strong></em>. Pensa o papel do capital imobilizado, como precisa produzir e destruir espaço, como pode representar um obstáculo à própria acumulação, devido ao fato de fixar-se. Reflete, baseado nas formulações dos <em>Grundrisse, </em>sobre o papel dos transportes e da comunicação da composição da mais-valia, visto que através destes a circulação se efetiva; sobre a necessidade, contraditória, do capital intensificar-se socialmente e expandir-se geograficamente; de como, nesta expansão, busca lugares onde ainda existem formações sociais pré-capitalistas, para incluí-los no circuito expandido de circulação e acumulação, sem necessariamente transformá-los em outros centros de <em>produção</em> capitalista; como o objetivo do capital é o aumento da velocidade de giro, engendrando uma compressão espaço-temporal que desejaria ser tudo, enfim, dinâmica; como o crédito surge para suplantar a impossibilidade de realizar as operações mercantis na velocidade desejada pelo capitalismo; como, quando a intensificação e a expansão encontram limites no que diz respeito à mão-de-obra, inovações técnicas e de infra-estrutura nas forças produtivas ou no incremento de mercado consumidor &#8211; seja no âmbito qualitativo criação de (novas necesssidades) e quantitativo (maior volume de troca de mercadorias) &#8211; surgem crises; como as crises representam momentos de racionalização do capital, no qual os setores de produção e as frações da burguesia tentam ajustar-se novamente; como, nestes momentos de crise, a política radical e a mobilização são fundamentais para forçar os rumos desta racionalização.</p>
<p align="JUSTIFY">Estas formulações e outras aglutinam-se a reflexões mais contemporâneas de Harvey acerca da importância de se compreender a obra de Marx a partir de sua leitura na fonte e, principalmente, d&#8217;”O Capital” como livro, não apenas como capítulos específicos que serão utilizados para referenciar as pesquisas ou os programas políticos. Exemplo mais famoso e contemporâneo disso é a <a title="Capital Classes" href="http://davidharvey.org/reading-capital/" target="_blank">série de video-aulas que ministrou sobre o livro.</a> Louvável inciativa de popularização da obra, atualmente conta com um coletivo de colaboradores que buscam <a title="Traduzir" href="http://davidharvey.org/2011/10/help-make-the-capital-lectures-more-accessible/" target="_blank">traduzir e legendar o material pra o maior número de línguas possível</a>, inclusive o português.</p>
<p align="JUSTIFY">Esta atitude para com Marx é importante, segundo ele, pois o possibilita adentrar seu pensamento para depois “friccioná-lo contra outros blocos teóricos&#8217; e ver o que resulta. Caso notório disso é <em>Condição Pós-Moderna </em>(1989), em que debruça-se sobre o discurso pós-moderno – hoje um pouco desgastado, mas bastante me voga nas últimas duas décadas &#8211; para tentar entender o que ele representa enquanto manifestação de um determinado momento histórico do capitalismo. Sua preocupação era dupla: de um lado, criticar a ausência de materialidade da discussão pós-moderna, em que tudo é multiplicidade discursiva, impossível de depreender se não a partir do fragmento e do novo, no qual indústria e o emprego formal acabam, e a história também; de outro lado, não queria perder o fato de que tal momento histórico demonstrava uma alteração em aspectos importantes do capitalismo, com a emergência do regime flexível de acumulação (sem a perda, é claro, de outras formas de organização da produção como o fordismo). Buscava, enfim, os possíveis desenvolvimentos da ideia, a partir da crítica devida. Vale dizer que, além desta postura, Harvey buscou as transformações tanto da produção material quanto nas estruturas urbanas, simbólicas e subjetivas, em coerência com sua busca pela explicação generalizante.</p>
<p align="JUSTIFY">Destas investigações, surgem conclusões importantes. Primeiro, que o regime de acumulação flexível impõe tamanha incerteza ao cotidiano que não poderia ser a única maneira de produzir, sob o risco de colocar a própria vida social em xeque, amentando violência urbana e doenças psíquicas.</p>
<p align="JUSTIFY">Segundo, apontou para a mudança no papel do Estado que, ao invés de interventor, empresário, como nos idos do keynesianismo, busca criar um ambiente mais atrativo para os negócios, limitando-se à algumas esferas de regulação, fornecendo incentivos fiscais para empresas multinacionais, reprimindo trabalhadores, flexibilizando legislações sócio-ambientais, facilitando a entrada de imigrantes como mão-de-obra mais barata, reduzindo ou cortando os direitos oriundos do Estado de Bem-Estar. Assim, percebe-se que o Estado nacional continua com papel axial, ao contrário do que se passou a proclamar a partir da década de 70.</p>
<p align="JUSTIFY">Terceiro, este mesmo Estado mostra-se incapaz de regular as relações entre tipos de capital, assistindo atônito a uma absurda autonomização do capital financeiro em fluxo global.</p>
<p align="JUSTIFY">Este Estado pós-moderno, neoliberal, está capenga no que diz respeito à realização dos direitos que o próprio liberalismo político promulgou. Harvey, em reflexões mais recentes, volta-se para a noção de justiça como duplamente fundamental. Por um lado, pelo viés teórico, para compreender a natureza contraditória do Estado liberal, que proclama uma série de direitos que simplesmente não são vivenciados por grande parte dos habitantes do globo, visto que muitas vezes direitos sociais e políticos estão apartados dos direitos econômicos. Por outro lado, pelo viés da política prática, a justiça social apresenta-se como um conjunto de conquistas reais dos movimentos sociais, lutas que devem ser valorizadas e que, quando aprofundadas, denunciarão o caráter ideológico e inalcançável da retórica dos direitos sob o capitalismo.</p>
<p align="JUSTIFY">Com isto, Harvey deixa claro que não abraça o reformismo que a natureza redistributiva do conceito de justiça pode, num primeiro momento, deixar entrever. Cabe articular seu aprofundamento com o projeto socialista, que resulte na construção de uma concepção socialista de direitos, que auxilie na formulação de um novo projeto e, ao mesmo tempo, de um instrumento de tensão em relação ao sistema atual.</p>
<p align="JUSTIFY">Por fim, vale mencionar duas das preocupações atuais de Harvey. Primeiro, o questionamento da teoria evolucionista/sociobiológica que frisa a competição como elemento central do comportamento humano, num movimento que acaba por justificar, no âmbito das ciências naturais, determinado discurso liberal. Ao contrário. Ele demonstra como a competição está restrita a poucos espaços no capitalismo. E não só: muitas vezes teme frontalmente a competição, fundando novos nichos de mercado para que determinadas empresas não tenham que bater de frente com outras, maiores e mais eficientes (esta é a dinâmica da diversificação econômica) ou socializando com o público prejuízos que seriam privados – vide recente estatização dos bancos e o resgate da General Motors para impedir que a economia dos EUA fosse à bancarrota.</p>
<p align="JUSTIFY">Portanto, a necessidade de regulação, que o discurso liberal agressivo quer desprezar, torna-se inegável na organização de competidores selvagens. Quando retoma a discussão acerca do comportamento humano estabelecido pelos evolucionistas, visando fundar o socialismo a partir de suas argumentações, ele propõe que a organização dos elementos básicos do repertório humano em qualquer momento (adaptação, cooperação, competição, transformação ambiental, ordem temporal e espacial) devem ser reorganizados de forma a favorecer a cooperação como elemento hegemônico. É interessante, embora eu não manje nada do assunto.</p>
<p align="JUSTIFY">Observando à época os movimentos de resistência global (principalmente o levante em Seattle durante o encontro da OMC, em novembro de 1999), ele coloca como é importante a organização de mobilizações contra o estatuto atual do capitalismo, pois só assim pode-se tensionar a racionalização imposta pela crise para um lado mais democrático – retornando ao seu argumento apresentado antes, de forma teórica, e conferindo-lhe estofo sociológico. Por fim, vale assinalar que sua posição em relação às lutas populares, buscando articular sua reflexão teórica com o engajamento prático, continua a mesma. Antes, envolveu-se em espaços de resistência comunitária à especulação imobiliária, em Baltimore, ou na luta pela manutenção de uma fábrica de produção naval, quando lecionou em Oxford. Mais recentemente, <a title="Palestra" href="http://www.unmp.org.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=251:fsm-2009-palestra-de-david-harvey&amp;catid=36:noticias&amp;Itemid=61" target="_blank">participou do Fórum Social Mundial em Belém, no início de 2009 </a>(com uma palestra acerca da relação entre a crise e a bolha imobiliária) e <a title="Occupy Londres" href="http://davidharvey.org/2011/11/videodavid-harvey-at-occupy-london-november-12-2011/" target="_blank">também apoiou o Occupy Londres em 2011 ao realizar lá palestra pública.</a></p>
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		<title>Sob a Marquise, na Cidade Nova</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Dec 2011 16:36:26 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Não tenho terra, permitam-me que nesta chuva eu diga. Mas é um brado parcial, este meu. Como é também a ocupação do solo – alguns têm, outros, não. E sempre há um terreno vazio por aí. Chegaram (o sujeito, por ora, fica indeterminado) antes, subiram a serra, fincaram os marcos, disseram: “isto é meu”. Bestializados, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=291&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Não tenho terra, permitam-me que nesta chuva eu diga. Mas é um brado parcial, este meu. Como é também a ocupação do solo – alguns têm, outros, não. E sempre há um terreno vazio por aí. Chegaram (o sujeito, por ora, fica indeterminado) antes, subiram a serra, fincaram os marcos, disseram: “isto é meu”. Bestializados, acreditamos nisto até hoje. Hoje, apartamentos vazios por toda esta cidade. Mereceriam ser mapeados, enumerados e colocados gratuitamente à disposição, em listas impressas em letras garrafais e espalhadas por todos os lambe-lambe possíveis.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">A cidade, esta em particular, é um falta-e-sobra espaço de enlouquecer qualquer cristão.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Agora, por exemplo, tem gente demais aqui. Estamos todos apertados sob a marquise, compenetrados observando a enxurrada. Agradecendo às bocas-de-lobo que, mesmo cheias de lixo e prestes a entupir, escoam a àgua que poderia subir pra cá e nos afogar.</p>
<ul style="text-align:justify;">
<li>
<p align="JUSTIFY">É problema de drenagem. Eu já avisei, mas eles nunca vêm pressas bandas. Já fiz esse serviço quando era moço e sei se a coisa está mal feita. Pra consertar agora vai ser osso. Pra começar tem que quebrar tudo.</p>
</li>
</ul>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">“Eu”, no caso, é o Januário, o atarracado zelador de nosso prédio. Não tem o hábito de conversar, já percebi: apenas constata e nos dá o privilégio de presenciar seus diagnósticos. Sabendo disso, confere uma ar escolástico a cada declaração, seja em relação ao aumento do IPTU, os jogos da Portuguesa (seu time, para o qual torce com distância comedida) ou aos novos inquilinos que chegaram há pouco.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">“Eles”, por sua vez, são aqueles genéricos funcionários do governo municipal, contra os quais vociferamos toda vez que algum problema irresoluto aparece. Como se sabe, ali reside a culpa, que o imaginário lhes atribui mesmo que a burocracia não o faça.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Quando adicionamos esta culpa tácita, derrota anterior ao próprio jogo, ao inabalável tom de Januário, sabe-se que nada mais há a se discutir. Concordamos sob a marquise, indignados em cantilena, a respiração suspensa de quem precisa se jogar na babilônia e não consegue – devido à inépcia de outrem, para quem um dia ainda vai sobrar porrada.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Acabamos de alugar o apartamento. É caro e minúsculo. Espaço: está perto do metrô (não à beira da praia ou à boca da mata virgem). Tempo: três anos antes da Copa. Aí, a gente se deu mal. E o contrato é por 30 meses.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Foi o que a D. Terezinha me avisou quando viemos olhar o apartamento. “Veja bem, meu filho!”. À época de nossas visitas para fechar a locação, nos perseguia na saída do prédio, avisando que, apesar dela, a vizinhança era esquisita, os condôminos irresponsáveis, que o “nível estava baixando” por ali. “Já procuraram em Perdizes ou em Moema?” Além de inusitada, sua insistência não disfarçava que a decadência não estava restrita ao prédio, impregnando nossa futura vizinha também.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Lembro-me disto bem no momento em que suas ancas fartas me comprimem lateralmente. O espaço sob a marquise comporta pouca gente. Ao lado de D. Terezinha, torna-se uma impossibilidade física e ética. Sem perder a gentileza e o respeito – afinal, é uma madama vetusta &#8211; tento não permitir que colonize toda a região, estabelecendo com diplomacia as zonas de fronteira. Sua voz fina e rouca me incomoda. Não quero que ela abra a boca, por isso, modero a disputa.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Em vão. D. Terezinha fala muito. Talvez formada no mesmo instituto de retórica que Januário, adora sínteses de efeito. Mas, para alcançá-las, infelizmente depende de adjetivos e interjeições a granel, encaixadas em rajadas desconcertantes, que não cessam. O interlocutor fica pasmo, não há brecha – entre as frases, desesperadas tomadas de fôlego anunciam não o término, mas a continuidade da ladainha. Por sua natureza torrencial, D. Terezinha é capaz de atrair ou repelir gente – é um campo magnético. Januário, por demais concreto, estaria mais identificado com metáforas na seara da engenharia.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Neste instante, oportunidade rara, D. Terezinha consegue fustigá-lo:</p>
<ul style="text-align:justify;">
<ul>
<li>
<p align="JUSTIFY">Não adianta ficar chorando pitanga. Você sabe como é, né, Januário? Não adianta. (Respiração arfante). Eu não devia ter saído de casa. Olha esta calçada! Isso não é responsabilidade do condomínio? Tá toda afundada, fica cheia de água. Essa água preta e a gente pisando. (Arfa, arfa). Ai que nojo, pode estar misturada com xixi de cachorro, gato, e a gente pegar toxoplasmose, que nem aconteceu com aquele povo quando choveu lá em Santa Catarina. Vocês não viram na TV daquela vez? (Língua de fora, arfando: muita gente em volta) Ifff, tem rachadura na parede do prédio também, dá pra ver a água escorrendo mesmo com a gente aqui embaixo!</p>
</li>
</ul>
</ul>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Ao contrário de nossa situação, recentes e não-proprietários, Terezinha mora aqui desde sempre. Herdou o apartamento através de um mecanismo genealógico tortuoso, que insiste em explicar a todos os neófitos, descrevendo em detalhes heranças, inventários, conflitos de família. A família é paulista “desde os bandeirantes” e aí o papo ganha uma certa empáfia, que incomoda principalmente o Isvandilson, nosso único vizinho no último andar, . “A senhora deveria tatuar a bandeira no bíceps, ou dar aos netos esses nomes tipo Anhagabaú, Piratininga ou Itaquaquecetuba, pra demonstrar orgulho”, ele disse uma vez, num encontro tenso no começo da escada, em que por qualquer motivo já começava louvar a “locomotiva do Brasil”.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">O Isvandilson é um punk hoje velho, que veio de Brasília no começo dos anos 80. Lá ele já se identificava com o visual, a música, as ideias – chegou em São Paulo apenas para confirmar. E esta foi sua maior alegria durante mais de 20 anos por aqui. Durante este tempo aprendeu a dizer as coisas na cara e na lata, por prazer e por dever. Atualmente, mais por prazer.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Não trabalha mais: vive de um precoce aposentadoria por invalidez (“mixaria da porra”) e da ajuda de um filho, que lhe envia dinheiro. O filho mora em Itapevi, trabalha numa loja de sapatos perto da São Bento. Anos atrás, tiveram “uma conversa franca”: disse que não queria o jovem sob o mesmo teto que ele, embora gostasse dele “pra caralho”. E mordeu: “eu preciso que você me dê uma grana de vez em quando, pois eu tô fodido. A vida me fodeu legal.” O “de vez em quando” virou mensal, e o garoto não reclama.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Isvandilson, ao contrário, esbraveja e impreca.</p>
<ul style="text-align:justify;">
<ul>
<li>
<p align="JUSTIFY">Se não fosse essa merda de hérnia nas costas, eu mesmo quebrava a calçada e fazia outra. Mas daí era pra parar de pagar este condomínio de vez, por que parece imposto do governo: suga, suga, e não tem retorno.</p>
</li>
</ul>
</ul>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">E acende um cigarro vagabundo.</p>
<ul style="text-align:justify;">
<ul>
<ul>
<li>
<p align="JUSTIFY">Pôôôôô&#8230; &#8211; reclama a geral, tentando amparar-se em recente lei municipal anti-tabagista.</p>
</li>
</ul>
</ul>
</ul>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Em vão. O espaço é minúsculo e minhas narinas estão coladas ao Isvandilson. Mas não acho ruim, até vou com a cara dele. Meus ouvidos, por sua vez, colados ao celular do Maikel, que se prepara para o primeiro dia como motoboy na cidade. O toque do aparelho é um funk, Mr. Carta com grave estourado, no último volume. Tomo um susto, enquanto ele já atende: “Tô tentando sair, mas tá tudo parado, chefe. Aqui, na Jabaquara, tudo. Não tem nem como tirar a moto da garagem do prédio.”</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">O chefe berra no outro lado da linha. Não adianta. Nada se move. Maikel chateia-se um pouco, mas o motivo é outro. Baixaram (o “eles” desta vez, refere-se à vereança da cidade) uma lei que proíbe carona na garupa, e ele já tinha combinado de no fim de tarde tomar uma cerveja com a Keitilin, sua namorada, pra comemorar o trampo. Mas o chefe, aproveitando sua condição de mandatário, via telefone descasca-lhe ordens e reprimendas, avisando que a polícia está de olho e prele “não carregar nada além dos pacotes que eu mandar, ouviu?”</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">O Maikel tosse com a fumaça do cigarro e desliga o celular – o chefe já se desinteressara dele. Boa-praça e inexpressivo, mora com a mãe convalescente de erisipela no único apartamento térreo. Não se incomoda com os outros em volta. Apenas baixa os olhos e confere uma ou outra função do celular, que correra para comprar em 12 vezes ao saber que tinha um trabalho. Vestido com roupa de chuva plastificada e negra, típica dos motoqueiros, não demonstra angústia, satisfação ou raiva, apenas uma espécie vaga de complacência, com a qual divisa sua <em>touchscreen </em>- como se ali uma paisagem inteira se consolidasse. Como se o menu do seu smartphone lhe tragasse como o cigarro traga Isvandilson, a chatice traga D. Terezinha, a técnica traga Januário. Mas, ao contrário destes, Maikel conseguia deixar-se absorver numa paz que é também vazio. Mais do que com os outros que nos circundavam, naquele momento eu me incomodava mais com ele, por não saber como atingi-lo &#8211; por sua impassividade mesmo quando comprimido sob a marquise, via telefone, no trânsito daqui a pouco. Talvez escutando meus pensamentos, ele coloca o fone de ouvido e some de vez sob o capuz.</p>
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		<title>Sweat Shop</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2011 13:59:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 minutos]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção Trabalhista Brasileira Contemporânea]]></category>

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		<description><![CDATA[Miúda, a chinesa cantarola com voz estranhamente grave. Embora o rumor da manufatura sob o chão seja enorme &#8211; o porão tomado por máquinas de costurar, bordar, capazes de overlock rapidíssimo e outras façanhas – ela teima em relembrar tons da infância em casa. Mexe os lábios e sente o diafragma. Chamaria a atenção, se [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=282&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Miúda, a chinesa cantarola com voz estranhamente grave. Embora o rumor da manufatura sob o chão seja enorme &#8211; o porão tomado por máquinas de costurar, bordar, capazes de overlock rapidíssimo e outras façanhas – ela teima em relembrar tons da infância em casa. Mexe os lábios e sente o diafragma. Chamaria a atenção, se alguém se dignasse a levantar a cabeça. Jornada intensa, todos ali afundam o olhar nas operações que as mãos devem realizar com destreza. Caso contrário, o bicho pega.</p>
<p align="JUSTIFY">Há também bolivianos, angolanos, somalis e brasileiros. A chinesa não calcula as horas, encalacradas apenas entre o trabalho e o sono. Há pouca luz, o idioma lá fora é estranho. Dentro, uma babel. Moram ali mesmo, num depósito adaptado ao lado, que já foi mais sujo. O dinheiro aqui é pouco. Pra ela, que é de lá, vale bem mais que o cansaço.</p>
<p align="JUSTIFY">É jovem, pálida e tem varizes. A chinesa está apaixonada. Borda casacos de tecido sintéticos, destes que cortam o vento, semi-esportivos, vendidos aos montes em avenidas cheias de gente. Qualquer cidade de médio porte tem uma delas, visto que o mundo demanda. Mais especificamente, no atual panorama da divisão do trabalho, a chinesa está responsável por imprimir o slogan “Catch Tha Mouse” nas costas dos casacos, de cor negra e gola/mangas vermelhas. Logo abaixo da frase a estampa de um homem musculoso, dragão tatuado no peito desnudo, braços cruzados e luvas de lutador, olhar assassino.</p>
<p align="JUSTIFY">Uma flor enfeita seu rosto. Roxa e amarela, já prestes a secar. A chinesa saiu estes dias e colheu duas ou três, por brincadeira. Está apaixonada por um brasileiro, vizinho de fileira na manufatura têxtil subterrânea. Não entende bem o que fala, ela que do português apenas maneja alguns verbos nos infinitivo e numerais ligados à contagem do salário. Decorou, há pouco, a quantidade mensal de horas trabalhadas: “quatlo-centos”, sorriu para o espelho ao conseguir pronunciar pela primeira vez.</p>
<p align="JUSTIFY">O brasileiro se mexe calmo, parece conduzir a vida com alguma elegância. Magro, moreno, sobrancelhas grossas, antes das têmporas talhadas com precisão. Poderia ser um meio-campista do futebol nos anos 50. Vai com calma, senta-se ereto no banquinho defronte à máquina, antes de começar analisa bem a feição de todos que trabalham a seu lado, suspira bem de leve e se concentra. Concentra-se: não se prostra. Recebe resignado o resultado do fim do mês, sempre desconfiando de seus compatriotas patrões. Ama a vida, percebe-se quando ao fim do dia sobe os degraus do porão.</p>
<p align="JUSTIFY">Todavia, ignora a chinesa. Parece andar noutro plano, ali no porão. Ela, que desajeitada meneia os cabelos quando o vê passar para o café. E sofre. Perde a atenção.</p>
<p align="JUSTIFY">O contramestre, ele sim já percebeu. Boliviano, bufa ao seu lado. Quer resultados. Há portos para abastecer. A chinesa, nervosa, avermelha-se. Confunde as palavras na cabeça, quando pensa no que dizer ao amado. O contramestre passa-lhe rente ao cotovelo. A máquina escreve: “C-A-T-C-H”&#8230; Daqui a pouco é o intervalo. Hoje é sexta-feira. São 400 horas/mês. Não consegue fazer as contas na cabeça: haverá ou não folga no sábado? É quase verão.</p>
<p align="JUSTIFY">“H-A-T”&#8230;, vai errado o artigo definido.</p>
<p align="JUSTIFY">(O contramestre, quando dorme, sonha com seu próprio porão).</p>
<p align="JUSTIFY">“No, no lo hagas así!”, berra numa língua que ali aprendeu-se a odiar. A chinesinha, sobressaltada. Distante, o brasileiro sorri de leve, conversando no café com os companheiros. Não vê nada ao redor: o intervalo é sagrado.</p>
<p align="JUSTIFY">O rumor das máquinas ensurdece. O casaco está perdido enquanto mercadoria. A frase inglesa perde o sentido desejado. A chinesinha perde a folga. O contramestre arranca-lhe violentamente o produto das mãos. Bufa ao examinar o erro. É baixo, tem os cabelos lisos. Sua mais que todos os outros ali.</p>
<p align="JUSTIFY">Aos poucos tranquiliza-se. A chinesa pensa que é normal que isso aconteça. Afinal, ela tem outras coisas mais importantes na cabeça. A cabeça, sempre baixa, quase anexa à máquina. Desconcentra-se: e daí? O contramestre, fixo nos detalhes do casaco  preenche-se da ideia: aquilo não deve ser desperdiçado. Deixa-se tomar pelo alívio produtivo típico dos administradores. Sejam eles grandes ou pequenos.</p>
<p align="JUSTIFY">Sai sem dizer palavra. O comprador chega às trẽs. Sem titubear, no cubículo envidraçado de onde acredita gerir recursos humanos, dobra o casaco e o empilha junto a centenas de outros.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/282/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/282/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=282&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Instruções para chover</title>
		<link>http://pradesterrofalar.wordpress.com/2011/09/14/instrucoes-para-chover/</link>
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		<pubDate>Thu, 15 Sep 2011 00:25:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 minutos]]></category>

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		<description><![CDATA[Em frente ao prédio, a rua do centro da cidade, as poças colecionam chuva há algum tempo. As fendas, por sua vez, colecionam poças. Abaixo delas, vitórias-régias tremem de frio. Há nelas um pouco da calamidade que nos cerca. A cachorra não percebe. Cava bem no meio da rampa de concreto de acesso à garagem. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=278&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Em frente ao prédio, a rua do centro da cidade, as poças colecionam chuva há algum tempo. As fendas, por sua vez, colecionam poças. Abaixo delas, vitórias-régias tremem de frio.</p>
<p align="JUSTIFY">Há nelas um pouco da calamidade que nos cerca. A cachorra não percebe. Cava bem no meio da rampa de concreto de acesso à garagem. Mesmo com o som difuso dos pingos, pode-se ouvir suas unhas arranhando o concreto. Procura algo enquanto um fio fino de água começa a descer em direção ao subsolo, onde estão os carros.</p>
<p align="JUSTIFY">Ao mesmo tempo, a cachorra pára e me mira através: chega com os olhos à chuva que está atrás. Ao interromper a primeira busca e empreender a segunda, agora com os olhos apertados e distantes, chafurdando na paisagem, percebo que sua perna esquerda traseira mexe involuntária. Eu fixo ali, enquanto a cachorra me atravessa.</p>
<p align="JUSTIFY">Sei entrar pela garagem deste prédio que não é nosso. Chego já após o expediente, embora alguns indivíduos permaneçam aqui, perambulando pelos andares, entre uma reunião e outra. Conhecem-me, mesmo fingindo o contrário. Prefiro ir pelas escadas sempre, temo que o elevador enguiçe comigo dentro e ninguém ouça meus berros. No terceiro andar, rumo ao ático, trombo uma figura sinistra, com chapéu pontiagudo a esconder a calvície. As têmporas afundadas numa fronte que periga submergir,. Olha-me de soslaio, retirando-se de algum aposento para atender o celular na esquina escura do corredor. Nota-se que trama, que planeja, mas não escuta. Chove a cântaros, o ruído torna-lhe impossível compreender seu interlocutor. A ligação é cortada. Ele parece desesperar, percebe-me, enfara-se em seu próprio sobretudo. Some à direita. Sua sombra, projetada na luz amarela, permanece comigo.</p>
<p align="JUSTIFY">Em solidariedade, a cachorra, perna trêmula, também sobe as escadas. Não se pode depreender sua idade, mas o pêlo está úmido e muito maltratado. O focinho cinzento de tanta cidade.</p>
<p align="JUSTIFY">Vamos ao ático.</p>
<p align="JUSTIFY">No último lance de escadas, chega-me aos pés uma torrente de água cada vez mais grossa. Vem túrgida, suja, viscosa. Penso nestes adjetivos todos quando me inclino para tocá-la. Penso em seus antônimos e sua inerente utilidade. A cadela lambe a água, os degraus, minhas botas. Mas o ruído de fundo muda. A metereologia muda. Outra sombra projeta-se de cima sobre nós. Há uma serra rilhando contra material duro. Olho pra cima, um homem de trajes verdes escuros, militares, barba ruiva artificialmente desgrenhada, surpreende-se comigo. Estou no último lance de escada, a cachorra não late, há apenas a possibilidade de luz pela brecha da porta. O homem está nervoso e oprime as próprias arcadas dentárias uma contra a outra.</p>
<p align="JUSTIFY">Empurro-o com força. Não sou bom sem o elemento surpresa. Funciona, pois ele se espanta e impede seu ódio. Voa pelas escadas e me ultrapassa. Não queria nada comigo. Ouço seu tropeção, sua batida contra o portão de ferro da garagem. Machucou-se sem querer.</p>
<p align="JUSTIFY">Ao sairmos, a cachorra cruza abrupta meu caminho, como se precisando chegar antes num ponto decisivo. Pára defronte ao pequeno canteiro de plantas decorativas. Sobre ela a água cai torrencialmente. Ela analisa as poças. Escolhe uma delas e volta a cavar.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/278/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/278/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=278&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Rio Canoas Energia S.A recusa-se em avançar nas negociações com atingidos pela UHE Garibaldi</title>
		<link>http://pradesterrofalar.wordpress.com/2011/09/13/rio-canoas-energia-s-a-recusa-se-em-avancar-nas-negociacoes-com-atingidos-pela-uhe-garibaldi/</link>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2011 21:46:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Especiais]]></category>
		<category><![CDATA[UHE Garibaldi; atingidos por barragens; rio Canoas]]></category>

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		<description><![CDATA[Na manhã do dia 13 de setembro de 2011, aconteceu no município de Abdon Batista, planalto sul de Santa Catarina, a terceira reunião entre o consórcio Rio Canoas Energia S.A e a comissão representante dos atingidos pela Usina Hidrelétrica de Garibaldi, a ser implantada no rio Canoas, afluente do rio Uruguai. A reunião, que contou [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=276&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Na manhã do dia 13 de setembro de 2011, aconteceu no município de Abdon Batista, planalto sul de Santa Catarina, a terceira reunião entre o consórcio Rio Canoas Energia S.A e a comissão representante dos atingidos pela Usina Hidrelétrica de Garibaldi, a ser implantada no rio Canoas, afluente do rio Uruguai. A reunião, que contou com a presença de cerca de 20 futuros atingidos e 10 membros do consórcio, trouxe novos impasses para o futuro das negociações e lutas pelos direitos da população impactada na região.</p>
<p align="JUSTIFY">O principal resultado do encontro foi a recusa do consórcio em avançar nos pontos de pauta propostos pela comissão – que traz as demandas de moradores de 5 municípios (Abdon Batista, Cerro Negro, Campo Belo do Sul, Vargem e São José do Cerrito) afetados pelo empreendimento. Em cerca de uma hora e meia de tentativa de conversa, pode-se perceber que, se depender dos responsáveis pela UHE Garibaldi, a dificuldade de encontrar espaços adequados de negociação junto a consórcios privados de geração de energia elétrica continuará. Mesmo depois das lutas históricas da bacia do Uruguai (Itá, Machadinho, Barra Grande e Campos Novos são exemplos fortes), a capacidade de organização dos atingidos ainda parece subestimada pelos empreendedores.</p>
<p align="JUSTIFY">A UHE Garibaldi já instalou o canteiro de obras em Abdon Batista. Os trabalhos vão em ritmo intenso. As primeiras desapropriações estão judicializadas. Se comparada ao histórico dos empreendimentos na bacia do Uruguai, sua capacidade de geração (177 Mw por hora) é relativamente pequena. Mesmo assim, a quantidade de atingidos será significativa, devido ao relevo plano às margens do Canoas, o que leva os agricultores a terem sua casa e lavoura muito próximas da beira do rio. Nas estimativas do MAB, entre 800 e 1000 pessoas serão atingidas diretamente.</p>
<p align="JUSTIFY">Após a Rio Canoas Energia S.A. apresentar um primeiro documento muito vago, contendo “Critérios e Diretrizes”, a comissão de atingidos apresentou uma contra-proposta, em reunião ocorrida no dia 25 de agosto. Nela, estavam contidas algumas posições, divididas em duas linhas gerais:</p>
<p align="JUSTIFY">
<ul>
<li>
<p align="JUSTIFY"><strong>Indenizações:</strong></p>
<p align="JUSTIFY"># os preços oferecidos pela terra nua e pelas benfeitorias estavam muito baixos e não garantem a mudança para outras regiões com a mesma qualidade da terra atualmente habitada;</p>
<p align="JUSTIFY">#Além disso, indenização por árvores frutíferas produzindo e reflorestamento era irrisória.</p>
<p align="JUSTIFY">#Áreas de Preservação Permanente (APPs) não seriam indenizadas. E devem ser.</p>
<p align="JUSTIFY">#Madeira a ser cortada na área que será alagada também não será indenizada. E deve ser.</p>
<p align="JUSTIFY">#Laudos de estudo dos terrenos devem ter uma cópia fornecida ao proprietário procurado pela empresa, para que ele possa procurar a assessoria que desejar e com quantidade adequada de tempo para isso.</p>
<p align="JUSTIFY"># Incorporação de outras categorias como público-alvo para indenização (balseiros, professores de áreas rurais atingidas, pequenos comerciantes).</p>
<p align="JUSTIFY">
</li>
<li>
<p align="JUSTIFY"><strong>Reassentamentos: </strong></p>
<p align="JUSTIFY"># Tamanho proposto para os lotes é pequeno;</p>
<p align="JUSTIFY"># Empresa impõe inúmeros obstáculos para a comprovação dos beneficiários;</p>
<p align="JUSTIFY">
</li>
</ul>
<p align="JUSTIFY">Nenhuma das propostas de revisão apresentadas pela comissão de atingidos foi contemplada com qualquer avanço, o que demonstrou a intenção do consórcio em maximizar os lucros até na barganha de direitos.</p>
<p align="JUSTIFY">Vale lembrar que esta é a mesma lógica que orienta a relação da empresa com os próprios trabalhadores na barragem, cujas condições de trabalho estão marcadas pela precariedade. Há cerca de um mês e meio atrás &#8211; tal como nos contextos de Jirau e Santo Antônio, no complexo do rio Madeira, em Rondônia, e nas obras de reforma do estádio do Maracanã, para a Copa de 2014 &#8211; também em Abdon Batista os operários viram-se obrigados a paralisarem a construção, devido à falta de requisitos mínimos de salubridade produtiva a serem cumpridos pela empresa – tais como alimentação decente, banheiros, salários adequados, pagamento de horas extras – culminando na humilhação e demissão de quatro trabalhadores.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/276/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/276/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=276&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Movimentos Sociais e sua Política de Comunicação &#8211; II</title>
		<link>http://pradesterrofalar.wordpress.com/2011/09/09/movimentos-sociais-e-sua-politica-de-comunicacao-ii/</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 20:20:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aprofundando]]></category>
		<category><![CDATA[Movimentos Sociais; contra-informação]]></category>
		<category><![CDATA[MPL Floripa]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem, a ideia do bate-papo era problematizar as condições necessárias para um movimento social formular uma política própria de comunicação. Como a vida contemporânea é permeada pelo uso dos meios de comunicação e o militante social geralmente é umx sujeitx que pensa e conversa bastante sobre a luta da qual participa, uma boa estratégia é [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=273&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Bem, a ideia do bate-papo era problematizar as condições necessárias para um movimento social formular uma política própria de comunicação. Como a vida contemporânea é permeada pelo uso dos meios de comunicação e o militante social geralmente é umx sujeitx que pensa e conversa bastante sobre a luta da qual participa, uma boa estratégia é tentar cruzar estas duas formas de participação – numa sociedade informacional e num movimento social. Assim, se pode tornar mais explícitas e públicas suas implicações, sistematizando-as em possíveis linhas de ação. Ou seja, fazer com que os participantes tomem consciência de como produzir e/ou se apropriar meios de comunicação em prol de sua luta.</p>
<p align="JUSTIFY">Algo importante é deixar uma coisa bem clara: comunicação é uma coisa, jornalismo é outra. Jornalismo é uma forma específica e tecnicizada de produção de discurso sobre a realidade, que segue uma longa cadeia de regras de conduta, ensinadas em faculdades e aprendidas no cotidiano das redações. Conheço o jornalismo a partir dos produtos que gera, aos quais temos acesso no noticiário diário e que posso analisar na condição de leitor e leigo. Nada mais do que isso posso dizer sobre o tema.</p>
<p align="JUSTIFY">Já a comunicação é o que nos diferencia como humanos. É a partir dela que se apreende e transmite a realidade circundante. Ao lado do trabalho e do jogo, é ela que fundamenta qualquer proposta pedagógica libertadora. Portanto, nos é acessível e, exatamente por isso, pode transformar-se em potente ferramenta de luta. Um movimento social pode formular sua política de comunicação prescindindo de jornalistas. (Contar com eles, no entanto, é sempre bom.). A capacidade de produzir comunicação, não só de consumi-la, rompe a dicotomia estanque entre emissor e receptor que, no campo da produção da informação, reproduz a divisão social do trabalho vigente no capitalismo.</p>
<p align="JUSTIFY">O procedimento seguinte é perceber os grupos que disputam a opinião pública e suas posições materiais. Quais delas veêm-se mais próximas na fabricação de hegemonia? Quais as formas, suportes, veículos, estratégias discursivas, para alcançá-la? Como diferenciar os veículos dentro de um bloco hegemônico? Ou seriam todos equivalentes? Quais as especificidades dos veículos anti-hegemônicos? Quais as estratégias que um movimento popular deve desenvolver diante destas multiplicidades?</p>
<p align="JUSTIFY">A partir destas perguntas, montamos um diagrama ainda superficial. Lutam, no campo da opinião pública, grupos que poderiam ser assim agrupados:</p>
<ul>
<li>
<p align="JUSTIFY"><em><strong>Mídia burguesa conservadora (MBC):</strong></em> conglomerados de grande alcance; burguesamente organizados (no sentido de viverem da exploração do trabalho e da receita publicitária, de serem uma empresa cujo objetivo importante, embora não único, seja lidar com a informação enquanto mercadoria) num dos ramos mais lucrativos no capitalismo contemporâneo; politicamente, produzem audiência passiva (no máximo, contam com espaço para comentários nas matérias, “cartas ao leitor” ou o “curtir” das redes sociais); atrelados historicamente às elites dirigentes do país, com participação ativa na legitimação dos governos de regimes de exceção; trabalham com as arcaicas noções de objetividade e imparcialidade. Exemplos: Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, RBS, Globo, Ed. Abril, Fox News, Clarín, etc.</p>
</li>
<li>
<p align="JUSTIFY"><em><strong>Mídia burguesa progressista (MBP): </strong></em>também burguesamente organizada e com receitas publicitárias menores (geralmente com grande participação da mídia estatal); pauta temas candentes também na MBC, mas a partir de um prisma menos moralista ou conservador politicamente; admite a subjetividade na produção do ponto de vista jornalístico, embora geralmente não deixe claro a que grupo, na realidade material, atrela-se (na época atual, na qual predomina a tendência financista predatória no capitalismo globalizado, tende a defender elites industriais nacionais e centrais trabalhistas “amarelas”, legitimando então o pactos social); encanta-se pelo discurso do capitalismo verde, sustentável; indigna-se com a retirada de políticas sociais focalizadas; pauta de forma avançada questões identitárias ligadas à xenofobia, aborto, homofobia, uso de entorpecentes; sensibiliza-se com as pautas dos movimentos sociais, oferecendo-lhes espaços esporádicos; ainda produz audiências passivas, etc. Ex: Carta Capital, Revista Piauí, The Guardian. (Outros exemplos são bem-vindos).</p>
</li>
<li>
<p align="JUSTIFY"><em><strong>Mídia Burguesa Especializada (MBE): </strong></em>Mobilizada pelos setores progressista e conservador da burguesia informacional, interessa aqui por que fornece dados e análises dos quais outras frações burguesas não podem prescindir. Mais do que nos dois segmentos midiáticos supracitados, deve aparecer como extremamente técnica e desinteressada. Mas suas ligações materiais continuam com os mesmos grupos – vide o exemplo do jornal “Valor Econômico”, no Brasil. Outros exemplos: Gazeta Mercantil e The Economist. (Vale dizer que a sugestão, absolutamente acertada, de inclusão deste ramo no diagrama, veio dos participantes da oficina do MPL)</p>
</li>
<li>
<p align="JUSTIFY"><em><strong>Mídia de Esquerda (ME)</strong></em>: próxima a movimentos sociais e/ou partidos políticos e às questões e pautas que produzem, embora ainda organize seu discurso de forma eminentemente jornalística; geralmente recebe recursos de colaborações, doações ou publicidade específica; explicita de onde fala, desacredita as intenções de “objetivar” e “imparcializar o discurso”. Exemplos: Democracy Now!; revista Caros Amigos, agência Carta Maior, jornal Brasil de Fato, Le Monde Diplomatique, Rádio Agência Notícias do Planalto, etc. (outros exemplos são bem-vindos).</p>
</li>
<li>
<p align="JUSTIFY"><em><strong>Mídia dos Movimentos (MMs)</strong></em>: aquela que apresenta a plataforma dos movimentos sociais a partir de decisões estratégicas tomadas em seu planejamento de lutas. Abrange formatos que transcendem o jornalismo profissional ou o colunismo de especialistas. Pode incorporar ou gerar com criatividade expressões que abarquem a ludicidade – a mística, nos movimentos da Via Campesina, ou os comunicados zapatistas redigidos pelo Sup. Marcos, são exemplos fortíssimos desta reapropriação linguística e produção autônoma de estilo.</p>
<p align="JUSTIFY">Implica uma articulação com outras dimensões de organização da luta, como os espaços de formação e de trabalho de base (ou “frente de massas”, na nomenclatura de alguns).</p>
<p align="JUSTIFY">Parte do pressuposto que todxs podem produzir mídia.</p>
<p align="JUSTIFY">Tem claro o ponto do conflito social de onde fala, a centralidade da comunicação na luta atual e a necessidade que ela seja um meio, e não um fim em si mesmo – sua instrumentalidade. Exemplos de veículos são inúmeros.</p>
<p align="JUSTIFY">Sobre estes pontos, devemos nos debruçar com mais calma no próximo texto.</p>
</li>
</ul>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/273/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/273/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=273&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Movimentos Sociais e sua política de comunicação &#8211; I</title>
		<link>http://pradesterrofalar.wordpress.com/2011/09/06/movimentos-sociais-e-sua-politica-de-comunicacao/</link>
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		<pubDate>Tue, 06 Sep 2011 14:19:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aprofundando]]></category>
		<category><![CDATA[Contra-informação]]></category>
		<category><![CDATA[movimentos sociais]]></category>
		<category><![CDATA[MPL Floripa]]></category>

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		<description><![CDATA[Nesses dias o MPL Floripa convidou para batermos um papo sobre produção de programas de rádio. Elxs desejam lançar alguns conteúdos em áudio, sistematizar as discussões sobre a iniciativa da tarifa zero e publicizar não só sua absoluta necessidade, mas principalmente sua transparente viabilidade. Topei na hora a conversa, até por que me admira a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=260&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Nesses dias o <a title="MPL Floripa" href="http://mplfloripa.wordpress.com" target="_blank">MPL Floripa</a> convidou para batermos um papo sobre produção de programas de rádio. Elxs desejam lançar alguns conteúdos em áudio, sistematizar as discussões sobre a iniciativa da <a title="Tarifa Zero" href="http://tarifazero.org" target="_blank">tarifa zero</a> e publicizar não só sua absoluta necessidade, mas principalmente sua transparente viabilidade. Topei na hora a conversa, até por que me admira a capacidade do movimento de propor algo interessante na paisagem um tanto árida das lutas sociais atuais. Vale lembrar que o transporte coletivo nos centros urbanos brasileiros associa-se a uma faceta muito atrasada do nosso capitalismo, erigida por décadas de lógica rodoviarista e cultura do automóvel, por um lado, e por um setor empresarial de visão arcaica e dependente de laços espúrios com governos municipais.</p>
<p align="JUSTIFY">Ao sentar para preparar algo, uma introdução à concepção de comunicação construída em duas frentes de luta distintas (a rádio de Tróia e a <a title="Rádio Campeche" href="http://radiocampeche.com.br" target="_blank">rádio comunitária do Campeche</a>), foi prazeroso reler alguns textos-base, tais como o material do Hans Magnus Enzensberger produzido no começo dos anos 70 (teses socialistas sobre comunicação de massa) e uma coletânea argentina sobre “Contra-Información”. Uma coisa que deveria ser mais corriqueira se passou:  aqueles textos confirmavam algumas discussões e experiências vividas, ampliava-lhes algumas perspectivas, atualizava outras. Enfim, relacionavam-se de forma igualitária com a prática política.</p>
<p align="JUSTIFY">Mostravam também seu limite diante de alguns aspectos da realidade comunicacional hoje, nas quais qualquer um é incessante produtor informacional (vide a avalanche de vídeos para o youtube e o uso incessante de redes sociais), embora isto esteja longe de algo como a democratização da comunicação e a produção de contra-hegemonia. É só atentarmos para a persistência material e ideológica dos grandes conglomerados de mídia no Brasil, América Latina e mundão. E também para a incapacidade de este ambiente crescentemente colaborativo gerar organização coletiva radical em níveis diretamente proporcionais. Há a colaboração como fim em si, não como meio &#8211; e isso não resolve os problemas fundamentais.</p>
<p align="JUSTIFY">As ideias foram aos poucos pipocando na cachola.  Vi então que a conversa inicial, apenas para introdução e contextualização de algumas noções, tomaria mais espaço do que o previsto. A parte dita técnica, de confecção de roteiro, gravação e edição de material, teria que ceder um pouco. Assim, pensei que seria interessante debatermos juntos o que seria uma política de comunicação do Movimento Passe Livre, movimento social contemporâneo que é.</p>
<p align="JUSTIFY">Até por que a questão da mobilidade urbana está na pauta já há algum tempo, tanto em Florianópolis quanto no Brasil. Sobre o tema há material produzido  por veículos de todos os espectros ideológicos. É uma questão recorrente na “opinião pública”.</p>
<p align="JUSTIFY">No entanto, diferentemente dos estudos de Norbert Elias sobre este tema, a opinião pública não pode ser reduzida à expressão de veículos midiáticos ligados a tendências políticas institucionais, confluindo para expressar os matizes de um habitus nacional. Ao contrário, ela expressa conflitos em relação a visões de mundo ligadas a posições materiais dos grupos, que transcendem a expressão burguesamente organizada em conglomerados de mídia.  Aliás, não é exatamente a operação de confundir tais conglomerados com a totalidade da opinião pública que interessa à mídia burguesa? Não é o mais desejado em termos de legitimação social e fabricação do consenso?</p>
<p align="JUSTIFY">Há de se expandir o campo. No que diz respeito à formação da opinião pública,  reivindicar um papel importante para as mídias produzidas pelos próprios movimentos sociais e populares, que buscam instaurar claramente um conflito, advindo de sua posição na luta pelo aprofundamento da democracia e  transformação das estruturas materiais.</p>
<p align="JUSTIFY">Assim, na opinião pública entendida como campo de conflito e luta, a mobilidade urbana tratada pelos veículos de comunicação burguesa pode até expressar um problema visível, mas não alguns dos seus fundamentos e razões. A apropriação capitalista dos meios de transporte, a maneira desigual como a cidade é vivenciada pelos trabalhadores e pelos burgueses, as alianças entre empresas de ônibus e grupos políticos hegemônicos, etc&#8230; Qual a incidência destes fatores nas reportagens sobre o trânsito? A própria falta de discussão acerca de obras viárias mirabolantes (tais como a quarta ponte em Florianópolis ou seus viadutos da Seta e do Rita Maria), absolutamente desatreladas de posicionamentos acerca da possível reversão da cultura do carro e da organização da cidade de forma diversa daquela voltada apenas para a circulação de mercadorias (mormente força de trabalho) não podem aparecer, pois isto não está no horizonte dos interesses dos veículos da mídia burguesa hegemônica. Vê-se uma faceta do problema (no caso, o tempo que as classes alta e média motorizada perdem nos engarrafamentos), mas não a contradição que a origina. Para expô-la, aí entra o movimento social e sua política de comunicação.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/260/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/260/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=260&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Travessa Ratcliff</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Aug 2011 16:01:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 minutos]]></category>

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		<description><![CDATA[A Travessa Ratcliff é um belo consolo, um oásis. Curta, entre 50 e 100 metros de extensão, ela é exatamente do tamanho da boemia de Florianópolis. Há até setores próximos, situados à rua João Pinto, mas qualquer um tem claro que algo muito distinto se passa na Travessa. Ela está permeada, ungida, pela substância diferente [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=256&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">A Travessa Ratcliff é um belo consolo, um oásis. Curta, entre 50 e 100 metros de extensão, ela é exatamente do tamanho da boemia de Florianópolis. Há até setores próximos, situados à rua João Pinto, mas qualquer um tem claro que algo muito distinto se passa na Travessa. Ela está permeada, ungida, pela substância diferente que a gente fica sempre a procurar por aí.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Está longe de ser perfeita. Mas tem mesas na rua, é feita de lajotas dos tempos antigos da urbanização da cidade, sobre as quais não pesam carros. (Neste aspecto, parece forçar-se a viver ainda naqueles idos.) Tem os irascíveis donos dos três bares, cada qual com seu mal-estar; um garçom estrangeiro e mudo de medo; outro que encarna o espírito de Anfitrião e é adorado por todos – pois, além de receber-nos com efusão, às vezes anima o final das noites com disparates divertidos. Tem um instituto de defesa de direitos humanos, e paredes pintadas em homenagem a sambistas daqui. No andar de cima de um de seus sobrados antigos e geminados, há varandas e janelas de um lugar aberto, porém esfumaçado e com ares de clandestinidade.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Passa por lá gente de todo o tipo – há gente que ainda insiste em classificar isso como “tribos urbanas”. A coisa vai misturada mesmo. Apesar do preço da cerveja galopar assustadoramente na região, vemos uma mistura de classes e origens. Vale lembrar, no entanto, seu passado: está colada à avenida Hercílio Luz, que por muito tempo serviu de demarcação espacial para a segregação étnica e de classe que funda as relações da cidade até hoje.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Dos protestos de 2005 em diante, a travessa tornou-se um lugar para o qual rumavam os manifestantes &#8211; para esfriar os ânimos, praticar avaliações relativamente superficiais dos acontecimentos do dia e cometer planejamentos completamente tresloucados para os dias seguintes. Devido a isso, numa de suas esquinas instalou-se uma câmera, destas de segurança “pública” (na real, que defendem interesses privados com dinheiro e logística estatal), que transformam “os espaços públicos das cidades em áreas internas de uma imensa prisão”, como diria Agamben sobre a Europa e que nós, desterrados, tão caninamente importamos.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">A travessa Ratcliff (alguns insistem que ela mudou de nome, mas é ocioso adentrar tal disputa) move-se por música. Mais especificamente, tornou-se um importante reduto do samba de Florianópolis, por alguns motivos. O primeiro deles é ser palco do Bom Partido, melhor agremiação de samba desta cidade, há mais de uma dezena de anos na estrada, responsável pela abertura das apresentações na ilha de ícones como <a title="Argemiro" href="http://umquetenha.org/uqt/?cat=1364" target="_blank">Argemiro do Patrocínio</a>, <a title="Monarco" href="http://pratoefaca.blogspot.com/search/label/Monarco" target="_blank">Monarco</a> e <a title="Jair" href="http://pratoefaca.blogspot.com/2011/02/seu-jair-do-cavaquinho-2002.html" target="_blank">Jair do Cavaquinho</a> (todos da Portela) e <a title="Xangô" href="http://umquetenha.org/uqt/?cat=790" target="_blank">Xangô da Mangueira</a>, entre muitos outros.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">O grupo, além de contar com repertório diferenciado, provocador (por não recorrer só aos clássicos do samba, realizando assim fundamental pedagogia para os não-iniciados), canta muitos sambas daqui. Note-se: Florianópolis tem excelentes compositores, antigos e recentes. Mas precisa-se ter a possibilidade de descobrir. Há algumas gerações a coisa está bem firmada por aqui, embora muitas vezes não atinja tão facilmente o público quanto Jay-Z ou Luan Santanna. Zininho, Marcelo 7 Cordas, Dinho (ex-Bom Partido), Maria Helena, Avez-Vouz da Copa Lord, a magnífica partideira Jandira (Bom Partido), Januário, Celinho da Copa Lord, Elias Marujo, entre muitos outros, são excelentes exemplos da lavra de Florianópolis. Um dos sambas mais bonitos já feito, não só no âmbito de Desterro, é “Vai Amanhecer”, de um compositor precocemente falecido cujo nome não me recordo.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">* * *</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">O “Torresmo à Milanesa”, grupo de formação mais recente, sempre entoa “Vai Amanhecer”. E também diversos outros temas daqui. Eles estão na travessa na sexta à noite, e tem-na deixado coalhada de gente. Dois grandes momentos, com os quais sempre podemos contar:</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<ul style="text-align:justify;">
<li>
<p align="JUSTIFY">“O Samba na Ilha”, tema que abre o único disco lançado pelo Bom Partido, há muito tempo atrás, interpretado por seu compositor, que nos dá uma aula de geografia local a partir da sociabilidade do samba. (Alguns dos locais citados causam uma nostalgia na gente&#8230;) e conta com uma continuação, também interpretada todas as sextas;</p>
</li>
<li>
<p align="JUSTIFY">“Um Ser de Luz”, tema de João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, composto em homenagem a Clara Nunes cerca de um mês depois de sua morte. Geralmente, é interpretado por uma intérprete maravilhosa, de voz rouca e olhos rasgados, com veludo, que chega apenas para isso e para &#8220;Retalhos de Cetim&#8221;, do Benito de Paula. <a title="João sobre Clara" href="http://www.youtube.com/watch?v=b-f0UdKYfo0" target="_blank">O depoimento do João Nogueira</a> sobre a necessidade deste tema para Clara é um momento bonito, que deve ser conhecido.</p>
</li>
</ul>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">Ìamos nos acostumando a encontrar samba e amigos, assim, às sextas e sábados. Mas na semana passada tomamos um susto: o Canto do Noel, palco do samba, teria fechado. Problemas matrimoniais entre os donos, contam as versões, sem aprofundar os fatos. O fato é que a coisa parecia desanimar. Nesta última sexta, após dois dias enfurnados num seminário de estudos sobre aqueles que dominam o mundo atualmente – i.e. Sistema Financeiro Internacional – pela força do hábito fomos até lá para nos embriagar. Chorar as pitangas sobre os títulos da dívida pública e, se fosse possível, traçar os planos da contra-hegemonia. Secretamente, queríamos investigar o destino do samba na travessa. Na chegada, a esquina com a João Pinto (não com a Tiradentes), estava mais vazia, como que esmaecida. Fomos até o final, e descobrimos que o Noel havia reaberto, agora arrendado por jovens talvez mais responsáveis, e que havia horizontes sólidos para a continuidade do samba. Datas já marcadas, coisa e tal. A paz instalou-se. Sentamos e bebemos.</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">* ** *** *</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY"> Duas pérolas do samba de Floripa, obtidas no fundamental acervo de músicas locais existente na rádio Campeche, podem ser baixadas aqui (outras pérolas tentarei disponibilizar em breve):</p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY"><a title="Celinho" href="http://www.4shared.com/file/W192zms7/celinho_da_copa_lord.html" target="_blank"> Celinho Copa Lord</a></p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY"><a title="Zininho" href="http://www.4shared.com/file/C0F3rvsj/Zininho.html" target="_blank">Zininho</a></p>
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;" align="JUSTIFY">
<p style="text-align:justify;">
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/256/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/256/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=256&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ouvir e organizar a palavra</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 17:32:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>cirandadapalavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 minutos]]></category>
		<category><![CDATA[zapatismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Na publicação passada, ruminei rápido sobre os desgostos do engajamento político não-institucional, contra-hegemônico, revolucionário. Esse ofício que parece, em momentos de reflexão mais pessimista, algo próximo ao ato voluntário de acordar de manhã e chupar limões aos montes. E, logo em seguida, limpar a boca com as costas das mãos, levantar-se e, com “digna raiva”, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=251&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Na publicação passada, ruminei rápido sobre os desgostos do engajamento político não-institucional, contra-hegemônico, revolucionário. Esse ofício que parece, em momentos de reflexão mais pessimista, algo próximo ao ato voluntário de acordar de manhã e chupar limões aos montes. E, logo em seguida, limpar a boca com as costas das mãos, levantar-se e, com “digna raiva”, se dispor a sorrir. Ando desconfiado disso e prometi a mim mesmo algo como uma retirada estratégica, por tempo indeterminado, para dedicar-me a quaisquer outras coisas.</p>
<p align="JUSTIFY">Não que seja fácil.</p>
<p align="JUSTIFY">Logo em seguida a esta minha decisão, sentei-me com o pessoal da maravilhosa editora Expressão Popular para auxiliá-los a vender seus livros, numa banca instalada em evento universitário. É mais ou menos assim que a iniciativa sobrevive: os autores dispensam os direitos autorais de suas obras, quem vende os livros ou fornece algum tipo de logística não cobra nada. Isso faz com que os livros tenham preços nem altos nem baixos, mas dignos – como todo colaborador da Expressão descobre rápido.</p>
<p align="JUSTIFY">Com esta rede em que se quebram as mediações e na qual abunda a ajuda mútua, a atitude legítima de baixar livros na internet &#8211; devido aos preços escorchantes das mercadorias e a argumentação reacionária e violenta dos ideólogos da indústria &#8211; vê-se transformada em vontade de que iniciativas como as da Expressão vinguem. (Sobre a postura dos ideólogos do direito autoral, ainda agrilhoados às masmorras da mercantilização da cultura e da informação, ver recente polêmica sobre a proibição do sítio letrasuspdownloads, perseguido por obscura editora gaúcha, em artigo do <a title="Baixa Cultura" href="http://baixacultura.org/2011/05/02/juremir-machado-e-os-finados-direitos-autorais-na-internet/" target="_blank">baixacultura.org</a>).</p>
<p align="JUSTIFY">Entre os inúmeros títulos suculentos expostos, estava um pequeno livro sobre o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Acredito que o único que a editora publicou sobre eles. Escrito pelo Emilio Gennari (que contribui também com a disseminação de outros conhecimentos importantes como a educação popular e a questão palestina contemporânea), a princípio achei que era outro, também de sua autoria, muito difundido na internet, que ajudou a popularizar a luta zapatista – chamava-se “Chiapas – as comunidades zapatistas reescrevem a história”). Mas não. Era o “EZLN-Passos de uma Rebeldia”, de 2008, que cobre um período mais longo da trajetória deste que é o movimento social mais emblemático para compreender como a prática da autonomia demonstrou-se sólida no confronto com o neoliberalismo.</p>
<p align="JUSTIFY">O EZLN é um movimento do qual se fala muito no Brasil – imagino que em outros lugares também – pois ele une, com criatividade raramente vista antes, algumas dimensões importantes para a luta política. Para não nos estendermos muito sobre isso, visto que há inúmeros textos sobre o tema, pode-se enfatizar:</p>
<p align="JUSTIFY">- a articulação entre a situação e os valores e práticas dos povos originários de origem maia na região de Chiapas, estado do sudeste mexicano, com as contribuições da política radical de esquerda;</p>
<p align="JUSTIFY">- o uso não só da palavra e dos meios de comunicação contemporâneos (nomeadamente a internet), mas principalmente a vontade constante de comunicar suas posições, análises, dificuldades, e a forma talentosa e abrangente como consegue fazê-lo;</p>
<p align="JUSTIFY">- a forma como a ideia de uma constante reinvenção das próprias práticas é colocada, a partir de assembléias (no plano político) e soluções materiais, concretas (no plano da produção dos espaços de educação, saúde, produção agrícola, construção de casas, etc.) &#8211; oinício do penúltimo capítulo do livro de 2008 de Gennari ilustra muito bem isso;</p>
<p align="JUSTIFY">- o uso da ideia de sociedade civil anti-hegemônica como um espaço que não só resiste como também propõe, que não existe apenas para administrar/fiscalizar o controle social das políticas estatais, mas para reelaborar a vida a partir de uma outra lógica.</p>
<p align="JUSTIFY">Por essas e outras, os zapatistas tornaram-se referência para a formação de militantes anti-capitalistas nos últimos dezessete anos (o levante foi em 1° de janeiro de 1994). Há diversas camadas de apropriação do fenômeno zapatista – desde uma certa idolatria fetichista até a negação de suas estratégias, calcadas num horizontalismo estranho a setores autoritários da esquerda. Eu mesmo conheço bem pouco, embora goste do que leio e vejo sobre eles. O contato com os livros do Gennari são excelentes maneiras de gostar ainda mais.</p>
<p align="JUSTIFY">No&#8221;EZLN-Passos de uma Rebeldia&#8221;, ele sumariza os eventos vividos pelo EZLN de 1994 a 2006. De toda a trajetória, que é fascinante, não realizarei aqui um “sumário do sumário” &#8211; prefiro indicar a leitura do livro inteiro. Gostaria apenas de enfatizar um ponto, presente à época de deflagração de uma das mais interessantes empreitadas dos zapatistas: “A Outra Campanha”, talvez a maneira mais explícita e concreta como elxs expressaram seu rechaço (desconfiança e desprezo seriam termos brandos demais) à política institucional tradicional, misto de conchavos convenientes e autoritarismo. À época (2005), o México vivia os derradeiros momentos do governo do ex-gerente da Coca-Cola Vicente Fox, e os partidos da direita tradicional (PRI – Partido Revolucionário Institucional – e PAN – Partido da Ação Nacional, do atual presidente Felipe Calderón) manobravam para impedir o ascenso nacional do prefeito da cidade do México, Manuel López Obrador, do PRD – Partido da Revolução Democrática. Este partido, representante da “mão esquerda da direita”, na avaliação do EZLN, sempre teve problemas com alternativas anti-institucionalistas, como deixa clara a relação do ex-candidato presidencial Cuathemóc Cárdenas com os zapatistas nos momentos inciais do levante.</p>
<p align="JUSTIFY">Os zapatistas saíam de uma avaliação extensa do primeiro ano de implantação e funcionamento das Juntas de Bom Governo e dos caracóis, espaços de democracia direta e rotativa recentes em seu território (quem foi ao Fórum Social Mundial no início de 2005 lembra dos espaços alternativos chamados &#8220;Caracóis&#8221;). Concluíram que foi uma construção positiva, uma escolha acertada, embora necessitasse de muitos reparos – como a questão de uma participação mais efetiva das mulheres e também a de uma menor intrusão da estrutura militar do EZLN, verticalizada como qualquer exército, na dinâmica horizontal presente nos espaços de discussão e deliberação políticas, ancorados nos valores tradicionais das comunidades indígenas.</p>
<p align="JUSTIFY">A crítica aos descaminhos da política tradicional e a realidade vivida nos caracóis e Juntas de Bom Governo contribuíram muito para a formulação da “Sexta Declaração da Selva Lacandona”. Esta exalta a necessidade de uma “outra política”, que busque negar e reverter os efeitos arrasadores do neoliberalismo no México a partir da soluções elaboradas “de baixo”, pelos oprimidos por esta fase de intensificação dos efeitos do capitalismo. Esta alternativa, “abaixo e à esquerda”, deve surgir a partir da escuta dos mais diversos grupos identificados com a proposta, culminando na organização de sua palavra, de sua alternativa.</p>
<p align="JUSTIFY">Respeitar a diversidade, mas unificar-se. Escutar, mas para agir. Para negar. Ouvir e organizar. Estes foram motes da “Outra campanha”, contrapartida concreta da Sexta Declaração. O livro, em seu último capítulo, descreve algumas das dificuldades e vicissitudes – a esquerda dita revolucionária não está acostumada a ouvir o outro, mas sim a falar. Acostumada a falar e digredir, esquece-se da urgência do agir. O EZLN penou, mas ao mesmo tempo foi com estes colaboradores que se dispôs a caminhar pelo território mexicano e ouvir, falar, dialogar, organizar. Como terá sido? <a title="Enlace Zapatista" href="http://enlacezapatista.ezln.org.mx/" target="_blank">Como tem sido?</a></p>
<p align="JUSTIFY">Sei pouco. Mas estas ideias são importantes. Se há pouca brecha para agir, se algumas decepções se acumulam no cotidiano da militância radical, é bom não pensar em desistir. Parar um pouco para ouvir, entender o que companheirxs pensam, reconhecer bem os argumentos da direita política e esmiuçá-los para destrui-los&#8230; Compreender a necessidade e a urgência das lutas. Historicizá-las e politizá-las, quando tendem a perder o conteúdo em processos de esvaziamento fetichista. Estender os ouvidos um pouco mais, sair do vozerio que nos circunda em busca de outras falas, distantes temporal e espacialmente. Há algumas possibilidades, talvez cautelosas em demasia, mas importantes para que o canto da sereia da “situação” não passe de nossos ouvidos às nossas bocas rápido demais.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pradesterrofalar.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pradesterrofalar.wordpress.com/251/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pradesterrofalar.wordpress.com&amp;blog=9491815&amp;post=251&amp;subd=pradesterrofalar&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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