Biografias

janeiro 29, 2012 at 11:06 am (10 minutos) ()

Não frequento mais tanto as vitrines de livrarias, embora sempre tenha por elas cultivado apreço. Num primeiro momento, passei a evitar o hábito por não ter dinheiro para realizar as compras que desejava tanto – e reputar desagradável o ato de salivar diante dos outros, estes sim capazes de consumir. Resignado, entrei a percorrer sebos, lugares cujo charme aumenta na razão diretamente proporcional de sua desorganização, obrigando-nos a adentrar pilhas de livros e pó. Paulatinamente, resolvi também não frequentá-los, por acharem-se por demais assépticos e caros. (Percebe-se que o crescimento de meus vencimentos estão na razão inversamente proporcional daquele que anunciam ser o de nossa nação hoje). Navego na rede, uma ou outra oferta nos portais. Às vezes traio minha sovinice e adquiro algum título.

As vitrines de livrarias foram também assaltadas por muitas coisas que me desinteressavam. Enfastiei-me com a profusão de obras como “Pai rico, pai pobre”, “Quem ama, educa!” e livros sobre os mais variados lances da 2a. Guerra Mundial, nas quais pululam homens fantásticos e impressionantes operações de logística. Procurei nas cidades lugares gratuitos, onde não haviam vitrines – o que me levou então a mirar bastante tempo o céu.

Na cidade nova, não se pode olhar muito para o céu – arranha-céus, esta patologia – e há ainda mais vitrines. Menor dos males: de volta às livrarias. Surpreendi-me com algumas novidades. Uma delas foi a multiplicação de biografias sobre jovens figuras do espetáculo contemporâneo. Em minha época de perseguidor das últimas invenções da indústria cultural, tal fenômeno não chamava a atenção. Hoje, não: Justin Bieber, Adele, Katy Perry, Britney Spears, Robert Pattinson e adjacências tem suas mínimas vidas esmiuçada em obras que brotam feito cogumelos após a chuva – em campos prévia e devidamente estrumados, diga-se.

Fico pensando: o que alguém faz para “merecer” uma biografia? Quando chega o momento de escrevê-la? Não se deveria ter um certo acúmulo de experiências e intervenções na realidade histórica (como no caso mais tradicional de estadistas, generais, lutadores da resistência popular, poetas)? Ou, ao menos, trazer algo de tão meteórico em sua trajetória que seria absurdo deixá-la passar em branco? Não me parece que algo assim se passe com os exemplos do parágrafo anterior.

Concluí que estes “biografados” têm a ver com um mote clássico da ideologia liberal: aquele que prega o exemplo individual do sucesso como referência para toda uma coletividade de pessoas que não chegaram ao mesmo patamar, mas precisam continuar acreditando que “conseguem”. Ou, ao menos, precisam estender um gesto de admiração àquel@s que teriam sido “mais competentes, mais esforçados”. A partir do momento em que se consegue o estrelato ou a fortuna, nada mais precisa acontecer: todo o propósito da vida já se efetivou.

A contrapartida desta ideia é exatamente o discurso que constata que o projeto de vida sonhado na adolescência e primeira maturidade não teria sido alcançado – fosse este o desejo d@ sujeit@ frustrad@ ou de outrem. Evidentemente, é muito mais comum conhecer alguém que esteja praticando ou já tenha praticado este tipo de revisão biográfica – que deságua em crises de diferentes graus de intensidade – do que alguém “bem-sucedido”, certo? O que nos leva a desconfiar da efetividade deste modelo para regermos nossa própria psiquê.

Conclui-se que o estatuto do que pode ou deve ser “biografável” deveria ser amplamente transformado e, por conseguinte, mutíssimo expandido.

Aí entra Agnés Varda e seu último filme exibido no Brasil, “As Praias de Agnés.” Dela, até então, ouvira apenas falar. Não conhecia seus filmes, sua história. E era para ter ficado  assim: fomos assistir outro filme, mas nos confundimos. Restou-nos a pré-estréia do filme de Varda. Última sessão do dia: se não encarássemos, perderíamos a viagem. Ficamos.

O filme parecia uma bomba: autobiografia da octogenária diretora, nascida na Bélgica. São nebulosas as motivações de alguém que se autobiografa – facilmente a coisa derrapa para a auto-exaltação. Por outro lado, o surgimento de “memórias” individuais são sempre bem-vindas, não só por parte de figuras públicas, mas por todos que tenham interesse em fixá-las. Estabelecem-se narrativas em perspectiva, que vão-se entrelaçando tanto entre si e quanto com os estudos históricos, conferindo carne, osso e, por vezes, poesia, à nossa compreensão da história.

Isto escrevo muito por que o filme de Varda, contrariando os temores iniciais, ajuda neste sentido. Bela, bela obra. Traça um panorama de sua vida interessante, com a juventude em plena segunda guerra mundial, a pobreza que leva a família a morar num barco em um pequena cidade belga, a perda do pai devido a dívidas de jogo, o envolvimento com o movimento cinematográfico francês da Nouvelle Vague, o casamento com o também cineasta Jacques Demy, a ida do casal a Hollywood nos anos 60, seu interesse pelas lutas pró-aborto, pelos Panteras Negras, as viagens a Cuba e China no início de ambas revoluções e o entusiasmo com o caráter do trabalho coletivo lá existente, o envolvimento com a cena artística da época, a perda de Demy devido à AIDS, o envelhecimento… São muitos eixos.

Varda os explora de forma criativa e ativa, por reconhecer o exercício da memória como algo deliberadamente seletivo. Brinca com isso. A começar pelo título do filme, justificado da seguinte forma: “Acredito que cada ser humano, se pudesse ser aberto, permitiria entrever uma paisagem. No meu caso, são praias.”. Isto é explicado na introdução do filme, enquanto ela e sua equipe montam diversos espelhos numa das praias de sua vida. O efeito desta operação é belíssimo, hipnótico e fragmentário – Agnés joga com a imagem com despretensão infantil e com a segurança de mestres de ofício.

A partir daí, são diversas as “brincadeiras” neste sentido. A memória vai ficando leve, mesmo quando lida com tensões e tragédias. Tal como sua voz, que narra tudo com poucas mas significativas inflexões. Mesmo seu andar já manco, o olhar um pouco vidrado – o exercício é tirar o peso sem perder a profundidade. Alquimia difícil.

Sofre quando lida com a morte de uma série de amigos com quem construiu toda uma dimensão da arte francesa a partir dos anos 50, marcada pela influência importante do surrealismo. Sofre principalmente ao falar de Demy, que desapareceu relativamente cedo. Sua figura aparece em diversos momentos, Agnés o ama muito. É inacreditável como se expõe sem se afetar. Às vésperas de sua morte, ela lhe propôs fazer uma filme sobre sua infância, entrecruzando as imagens ficcionais com outras documentais, captadas muito próximas do corpo de Demy convalescendo. Uma modalidade muito particular de luto, que gerou um filme nos anos 90 e é retomado n’”As Praias…”

Percebe-se que Agnés sabe se expor. Joga com isso, não como preconizaria nossa sociedade mercantil espetacularizada. Constate-se: tanto para as biografias ansiosas quanto para a as vidas que anseiam mostrar-se em “shows de realidade” nas TVs, nossa cineasta octogenária tem muito o que ensinar.

Ou, como diria um camarada: ela, sim, “tem café no bule”.

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