David Harvey

janeiro 19, 2012 at 11:42 am (Aprofundando) ()

David Harvey é um intelectual que interessa. É daqueles cujas opiniões você quer saber e cujas novas iniciativas são esperadas com ansiedade. Suas obras, embora com um pé na geografia, disciplina na qual se formou e que lecionou durante bom tempo, transcendem o jargão e as preocupações habituais da compartimentação. Embora preocupado com o aspecto espacial da acumulação capitalista, a maneira como esta cria estruturas geográficas específicas, sua teorização busca transcender o disciplinar em busca de totalizações para a compreensão da realidade.

. Até por que, como explica no início de sua entrevista à New Left Review, não se identificava com o que chama de “excepcionalismo” na geografia, postura na qual viu-a encalacrada na década de 60, marcada por explicações localistas dos fenômenos, incapazes de superar os raciocínios fragmentados. Seu primeiro livro (Explanations in Geography, de 1969), busca na filosofia positivista da ciência da época (Popper, Hempel), este caráter mais abrangente. Àquela altura, não havia sinal de política, e muito menos de Marx, em suas reflexões.

Isto mudaria com sua ida da Inglaterra para Baltimore, nos EUA, exatamente um ano depois do assassinato de Martin Luther King e das revoltas que destruíram boa parte da cidade. Ao mesmo tempo, aconteciam as revoltas estudantis de 1968 e os protestos contra o Vietnã, as guerrilhas no Terceiro Mundo. Em seu relato 32 anos depois, Harvey surpreende-se com sua distância em relação a tudo isso na época. Sua aproximação com o marxismo dá-se com este começo de inquietude e também devido a um grupo de estudos d’ “O Capital’ puxado por estudantes, do qual ele participava e era o elo “burocrático” com a universidade.

Dos temas que a entrevista levanta, chama a atenção a maneira como sua ainda incipiente leitura de Marx aparece em “Justiça Social e a Cidade”, de 1973, devido ao fato de que sua opção teórica anterior, relacionada ao “liberalismo legítimo” que caracteriza alguns setores da intelectualidade progressista dos EUA, simplesmente não funcionava para explicar a dinâmica urbana. que pesquisava Procurando outras perspectivas, “tropeça” no marxismo – como ele mesmo afirma.

Daí, passa a pensar a dimensão geográfica da acumulação, no que se consolidará na exigência de se praticar o que chama de materialismo histórico-geográfico. Pensa o papel do capital imobilizado, como precisa produzir e destruir espaço, como pode representar um obstáculo à própria acumulação, devido ao fato de fixar-se. Reflete, baseado nas formulações dos Grundrisse, sobre o papel dos transportes e da comunicação da composição da mais-valia, visto que através destes a circulação se efetiva; sobre a necessidade, contraditória, do capital intensificar-se socialmente e expandir-se geograficamente; de como, nesta expansão, busca lugares onde ainda existem formações sociais pré-capitalistas, para incluí-los no circuito expandido de circulação e acumulação, sem necessariamente transformá-los em outros centros de produção capitalista; como o objetivo do capital é o aumento da velocidade de giro, engendrando uma compressão espaço-temporal que desejaria ser tudo, enfim, dinâmica; como o crédito surge para suplantar a impossibilidade de realizar as operações mercantis na velocidade desejada pelo capitalismo; como, quando a intensificação e a expansão encontram limites no que diz respeito à mão-de-obra, inovações técnicas e de infra-estrutura nas forças produtivas ou no incremento de mercado consumidor – seja no âmbito qualitativo criação de (novas necesssidades) e quantitativo (maior volume de troca de mercadorias) – surgem crises; como as crises representam momentos de racionalização do capital, no qual os setores de produção e as frações da burguesia tentam ajustar-se novamente; como, nestes momentos de crise, a política radical e a mobilização são fundamentais para forçar os rumos desta racionalização.

Estas formulações e outras aglutinam-se a reflexões mais contemporâneas de Harvey acerca da importância de se compreender a obra de Marx a partir de sua leitura na fonte e, principalmente, d’”O Capital” como livro, não apenas como capítulos específicos que serão utilizados para referenciar as pesquisas ou os programas políticos. Exemplo mais famoso e contemporâneo disso é a série de video-aulas que ministrou sobre o livro. Louvável inciativa de popularização da obra, atualmente conta com um coletivo de colaboradores que buscam traduzir e legendar o material pra o maior número de línguas possível, inclusive o português.

Esta atitude para com Marx é importante, segundo ele, pois o possibilita adentrar seu pensamento para depois “friccioná-lo contra outros blocos teóricos’ e ver o que resulta. Caso notório disso é Condição Pós-Moderna (1989), em que debruça-se sobre o discurso pós-moderno – hoje um pouco desgastado, mas bastante me voga nas últimas duas décadas – para tentar entender o que ele representa enquanto manifestação de um determinado momento histórico do capitalismo. Sua preocupação era dupla: de um lado, criticar a ausência de materialidade da discussão pós-moderna, em que tudo é multiplicidade discursiva, impossível de depreender se não a partir do fragmento e do novo, no qual indústria e o emprego formal acabam, e a história também; de outro lado, não queria perder o fato de que tal momento histórico demonstrava uma alteração em aspectos importantes do capitalismo, com a emergência do regime flexível de acumulação (sem a perda, é claro, de outras formas de organização da produção como o fordismo). Buscava, enfim, os possíveis desenvolvimentos da ideia, a partir da crítica devida. Vale dizer que, além desta postura, Harvey buscou as transformações tanto da produção material quanto nas estruturas urbanas, simbólicas e subjetivas, em coerência com sua busca pela explicação generalizante.

Destas investigações, surgem conclusões importantes. Primeiro, que o regime de acumulação flexível impõe tamanha incerteza ao cotidiano que não poderia ser a única maneira de produzir, sob o risco de colocar a própria vida social em xeque, amentando violência urbana e doenças psíquicas.

Segundo, apontou para a mudança no papel do Estado que, ao invés de interventor, empresário, como nos idos do keynesianismo, busca criar um ambiente mais atrativo para os negócios, limitando-se à algumas esferas de regulação, fornecendo incentivos fiscais para empresas multinacionais, reprimindo trabalhadores, flexibilizando legislações sócio-ambientais, facilitando a entrada de imigrantes como mão-de-obra mais barata, reduzindo ou cortando os direitos oriundos do Estado de Bem-Estar. Assim, percebe-se que o Estado nacional continua com papel axial, ao contrário do que se passou a proclamar a partir da década de 70.

Terceiro, este mesmo Estado mostra-se incapaz de regular as relações entre tipos de capital, assistindo atônito a uma absurda autonomização do capital financeiro em fluxo global.

Este Estado pós-moderno, neoliberal, está capenga no que diz respeito à realização dos direitos que o próprio liberalismo político promulgou. Harvey, em reflexões mais recentes, volta-se para a noção de justiça como duplamente fundamental. Por um lado, pelo viés teórico, para compreender a natureza contraditória do Estado liberal, que proclama uma série de direitos que simplesmente não são vivenciados por grande parte dos habitantes do globo, visto que muitas vezes direitos sociais e políticos estão apartados dos direitos econômicos. Por outro lado, pelo viés da política prática, a justiça social apresenta-se como um conjunto de conquistas reais dos movimentos sociais, lutas que devem ser valorizadas e que, quando aprofundadas, denunciarão o caráter ideológico e inalcançável da retórica dos direitos sob o capitalismo.

Com isto, Harvey deixa claro que não abraça o reformismo que a natureza redistributiva do conceito de justiça pode, num primeiro momento, deixar entrever. Cabe articular seu aprofundamento com o projeto socialista, que resulte na construção de uma concepção socialista de direitos, que auxilie na formulação de um novo projeto e, ao mesmo tempo, de um instrumento de tensão em relação ao sistema atual.

Por fim, vale mencionar duas das preocupações atuais de Harvey. Primeiro, o questionamento da teoria evolucionista/sociobiológica que frisa a competição como elemento central do comportamento humano, num movimento que acaba por justificar, no âmbito das ciências naturais, determinado discurso liberal. Ao contrário. Ele demonstra como a competição está restrita a poucos espaços no capitalismo. E não só: muitas vezes teme frontalmente a competição, fundando novos nichos de mercado para que determinadas empresas não tenham que bater de frente com outras, maiores e mais eficientes (esta é a dinâmica da diversificação econômica) ou socializando com o público prejuízos que seriam privados – vide recente estatização dos bancos e o resgate da General Motors para impedir que a economia dos EUA fosse à bancarrota.

Portanto, a necessidade de regulação, que o discurso liberal agressivo quer desprezar, torna-se inegável na organização de competidores selvagens. Quando retoma a discussão acerca do comportamento humano estabelecido pelos evolucionistas, visando fundar o socialismo a partir de suas argumentações, ele propõe que a organização dos elementos básicos do repertório humano em qualquer momento (adaptação, cooperação, competição, transformação ambiental, ordem temporal e espacial) devem ser reorganizados de forma a favorecer a cooperação como elemento hegemônico. É interessante, embora eu não manje nada do assunto.

Observando à época os movimentos de resistência global (principalmente o levante em Seattle durante o encontro da OMC, em novembro de 1999), ele coloca como é importante a organização de mobilizações contra o estatuto atual do capitalismo, pois só assim pode-se tensionar a racionalização imposta pela crise para um lado mais democrático – retornando ao seu argumento apresentado antes, de forma teórica, e conferindo-lhe estofo sociológico. Por fim, vale assinalar que sua posição em relação às lutas populares, buscando articular sua reflexão teórica com o engajamento prático, continua a mesma. Antes, envolveu-se em espaços de resistência comunitária à especulação imobiliária, em Baltimore, ou na luta pela manutenção de uma fábrica de produção naval, quando lecionou em Oxford. Mais recentemente, participou do Fórum Social Mundial em Belém, no início de 2009 (com uma palestra acerca da relação entre a crise e a bolha imobiliária) e também apoiou o Occupy Londres em 2011 ao realizar lá palestra pública.

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