Instruções para chover

setembro 14, 2011 at 9:25 pm (10 minutos)

Em frente ao prédio, a rua do centro da cidade, as poças colecionam chuva há algum tempo. As fendas, por sua vez, colecionam poças. Abaixo delas, vitórias-régias tremem de frio.

Há nelas um pouco da calamidade que nos cerca. A cachorra não percebe. Cava bem no meio da rampa de concreto de acesso à garagem. Mesmo com o som difuso dos pingos, pode-se ouvir suas unhas arranhando o concreto. Procura algo enquanto um fio fino de água começa a descer em direção ao subsolo, onde estão os carros.

Ao mesmo tempo, a cachorra pára e me mira através: chega com os olhos à chuva que está atrás. Ao interromper a primeira busca e empreender a segunda, agora com os olhos apertados e distantes, chafurdando na paisagem, percebo que sua perna esquerda traseira mexe involuntária. Eu fixo ali, enquanto a cachorra me atravessa.

Sei entrar pela garagem deste prédio que não é nosso. Chego já após o expediente, embora alguns indivíduos permaneçam aqui, perambulando pelos andares, entre uma reunião e outra. Conhecem-me, mesmo fingindo o contrário. Prefiro ir pelas escadas sempre, temo que o elevador enguiçe comigo dentro e ninguém ouça meus berros. No terceiro andar, rumo ao ático, trombo uma figura sinistra, com chapéu pontiagudo a esconder a calvície. As têmporas afundadas numa fronte que periga submergir,. Olha-me de soslaio, retirando-se de algum aposento para atender o celular na esquina escura do corredor. Nota-se que trama, que planeja, mas não escuta. Chove a cântaros, o ruído torna-lhe impossível compreender seu interlocutor. A ligação é cortada. Ele parece desesperar, percebe-me, enfara-se em seu próprio sobretudo. Some à direita. Sua sombra, projetada na luz amarela, permanece comigo.

Em solidariedade, a cachorra, perna trêmula, também sobe as escadas. Não se pode depreender sua idade, mas o pêlo está úmido e muito maltratado. O focinho cinzento de tanta cidade.

Vamos ao ático.

No último lance de escadas, chega-me aos pés uma torrente de água cada vez mais grossa. Vem túrgida, suja, viscosa. Penso nestes adjetivos todos quando me inclino para tocá-la. Penso em seus antônimos e sua inerente utilidade. A cadela lambe a água, os degraus, minhas botas. Mas o ruído de fundo muda. A metereologia muda. Outra sombra projeta-se de cima sobre nós. Há uma serra rilhando contra material duro. Olho pra cima, um homem de trajes verdes escuros, militares, barba ruiva artificialmente desgrenhada, surpreende-se comigo. Estou no último lance de escada, a cachorra não late, há apenas a possibilidade de luz pela brecha da porta. O homem está nervoso e oprime as próprias arcadas dentárias uma contra a outra.

Empurro-o com força. Não sou bom sem o elemento surpresa. Funciona, pois ele se espanta e impede seu ódio. Voa pelas escadas e me ultrapassa. Não queria nada comigo. Ouço seu tropeção, sua batida contra o portão de ferro da garagem. Machucou-se sem querer.

Ao sairmos, a cachorra cruza abrupta meu caminho, como se precisando chegar antes num ponto decisivo. Pára defronte ao pequeno canteiro de plantas decorativas. Sobre ela a água cai torrencialmente. Ela analisa as poças. Escolhe uma delas e volta a cavar.

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